17.1.10

CAPÍTULO 2 - RESENHA DA OBRA "A ESSÊNCIA DO CRISTIANISMO" DE FEUERBACH



Na Essência do Cristianismo, Feuerbach procura demonstrar que a essência da religião é a essência do ânimo humano e que a teologia pode ser dissolvida e superada pela antropologia. O autor expõe que as representações e segredos atribuídos a um Ser sobre-humano não eram mais do que representações humanas naturais, e que aquilo que no imaginário pairava no Céu, pode ser encontrado sem maiores dificuldades no solo da Terra. Dessa forma, o homem transportaria para o Céu o ideal de justiça, bondade e virtude que não conseguiu realizar na Terra. Colocaria num grau universal e absoluto atributos e qualidades de si mesmo. Todos os Deuses não seriam então, mais do que criações humanas. Feuerbach critica a idéia absoluta que seria baseada na revelação e encarnação cristãs, ultrapassando assim o racional e se tornando teologia. A teologia, religião institucionalizada é fonte de dogmas e abstrações metafísicas que perdem a ligação com o real e palpável. Cada religião pretende ser detentora da verdade, e isso é motivo de fanatismo e intolerância com outras formas de pensamento. A verdade acessível apenas a alguns (revelada pela fé), sem critérios objetivos, torna fácil a manipulação de pequenos grupos sobre os demais, por se tratar de algo que não pode ser demonstrado com base em elementos sensíveis. A obra de Feuerbach está dividida em duas partes, a primeira, afirmativa e a segunda constitui uma negativa.

2.1. 1ª PARTE - A ESSÊNCIA VERDADEIRA, ISTO É, ANTROPOLÓGICA DA RELIGIÃO

A primeira parte da obra é afirmativa, procura demonstrar que a religião se funde com a teologia por dispor do conjunto das relações com o ser transcendental e diferente do homem e que a filosofia, na medida em que valoriza o pensamento e a inteligência humana, se encaminha para uma antropologia, reconhecendo à partir daí uma unidade entre infinito e finito que se realiza no homem e não mais em Deus.

A Essência do Homem em Geral

Na introdução, 1° capítulo, intitulado “A essência do homem em geral”, Feuerbach inicia dizendo que a diferença entre o homem e o animal é a consciência, mas a consciência no sentido do gênero, da essencialidade humana. Isso significa que só o homem tem consciência de si mesmo e é objeto para si mesmo em nível de espécie. Ao tomar consciência de si o homem toma consciência de sua humanidade em geral, pois além de se perceber como indivíduo, reconhece a sua participação na espécie humana. Quando fala de si o homem se comunica com a sua essência, que não é finita, mas ilimitada, ao mesmo tempo Eu e Tu. Na essência da qual o homem é consciente e realiza a sua humanidade, estão a razão, a vontade e o coração, atributos da sua perfeição e os elementos que fundamentam a sua existência, pois o homem existe para conhecer, para amar e para querer, sendo assim esta trindade divina para Feuerbach seria a sua principal finalidade. O homem toma consciência de si mesmo através dos objetos, são os objetos que revelam a essência do homem. O poder do objeto (Deus) sobre o homem é o poder da sua própria essência. O sentimento é a essência subjetiva e, ao mesmo tempo objetiva da religião – “Deus só pode ser conhecido por Deus” - somente o sentimento pode elevar o homem a Deus. O sentimento é de natureza divina por isso somente através dele é possível perceber a divindade.

A Essência da Religião em Geral

Ainda na Introdução, 2° capitulo, intitulado “A essência da religião em geral”, é propósito de Feuerbach demonstrar que é ilusória a contradição do divino e humano, haja vista que a consciência e o conhecimento que o homem tem de Deus é a consciência e o conhecimento que também o homem tem de si mesmo. Deus, o objeto do homem, nada mais é que a sua própria essência objetivada. Sendo assim, Deus e o homem seriam a mesma coisa. Mas, Feuerbach ressalta que a religião é a primeira consciência, a consciência indireta que o homem tem de si mesmo, porque o homem transporta primeiramente a sua essência para fora de si, em busca de Deus, para só depois encontra-lo dentro de si. A religião considera que a razão e o bem estão em Deus e não no homem. Se a contradição entre o divino e o humano é ilusória, a religião seria então o relacionamento do homem consigo mesmo, com a sua própria essência. Todas as qualidades da essência divina são também qualidades da essência humana. “Tudo que tem para o homem o significado de ser em si, tudo que é para ele o ente supremo, tudo aquilo acima do que ele não pode conceber nada mais elevado, tudo isso é para ele exatamente a essência divina”. Deus é a objetivação da essência humana, justificada pela efetividade dos predicados divinos serem humanos. Sujeito e predicado distinguem-se apenas como EXISTÊNCIA (o homem) e ESSÊNCIA (Deus dentro do homem). Negar a divindade que existe na essência do homem é negar a existência humana. Quanto mais se dá forma humana a Deus quanto a essência, maior se torna a diferença entre Deus e o homem e a negação da unidade entre a essência humana e a essência divina. Quando se enaltece Deus, o homem é diminuído, para que Deus seja tudo e o homem nada. O aprimoramento moral é a meta divina do homem e a salvação do homem é a meta humana de Deus.

Deus Como Entidade da Razão

No 3° capítulo, intitulado “Deus como entidade da razão”, Feuerbach procura esclarecer que o verdadeiro significado da teologia é a antropologia aprofundando a questão da alienação e procurando demonstrar que a cisão que ocorre entre Deus e o homem é na verdade a cisão do homem com a sua própria essência. Esta compreensão surge através do estabelecimento das distinções entre razão e sentimento. Somente através da razão é que o homem torna-se capaz de julgar e agir em contradição com os seus mais caros sentimentos humanos. Deus é a revelação da razão, é a causa racional de todas as coisas, por isso é que a razão é que é o ser originário, primitivo. Sendo assim, para Feuerbach o que contradiz a razão, contradiz a Deus. Deus é a mais elevada faculdade de pensar, é o que a razão pensa como mais elevado. Nossas qualidades positivas, essenciais, nossas realidades são então as realidades de Deus, mas em nós são elas limitadas, em Deus ilimitadas. Mas quem retira das realidades as limitações? A razão. O que é então o ser pensado sem qualquer limitação senão a essência da razão que abandona qualquer limitação? Como tu pensas a Deus pensas a ti mesmo – A medida do teu Deus é a medida da tua razão. Se pensas Deus limitado, então é a tua razão limitada; se pensas Deus ilimitado, então a tua razão não é também limitada. Somente quem pensa é livre e autônomo. O pensar, a razão, é o que garante a autonomia do homem. Sem razão um indivíduo é objeto para outro, pois perde a sua autonomia, o seu ser para si. A razão é que é a unidade da inteligência e é a unidade de Deus. O que é racional para a razão é. É para ela uma lei absoluta, é algo de validade universal. A razão tem a sua essência em si mesma, nada tem além de si ou fora de si que pudesse ser comparado com ela. Da mesma forma Deus é as qualidades que tem. Nele não se distingue existência e essência. Deus tem as mesmas características que são abstraídas da essência da razão. Então, para Feuerbach, a razão é o ser inefável e necessário porque somente ela pode estabelecer a diferença entre o ser e o não ser. Se não existisse a razão, somente a não razão existiria. A razão é então a necessidade mais profunda e essencial, pois somente na razão se revela a finalidade, e o sentido do ser de todas as coisas.

Deus Como Ser Moral ou Lei

No 4° Capítulo, intitulado “Deus como ser moral ou lei”, Feuerbach pretende esclarecer como Deus só é importante se o homem objetivar Deus para o homem. Assim o interesse da religião é demonstrar quando Deus é diferente do homem, (a medida em que expõe Deus como redentor), mas ao mesmo tempo é também do seu interesse que Deus seja igual ao homem, (ao refletir a essência do gênero humano). O que o homem quer na religião é se satisfazer, porque a essência do homem é a mesma essência de Deus, constituída de razão, vontade e sentimento. Por outro lado, a qualidade racional de Deus que se salienta sobre todas as outras é a perfeição moral. Deus é um ser moralmente perfeito e como ser moral é o ser infinito. Deus é a lei personificada da moralidade no homem. O Deus moral exige do homem que ele seja como Ele próprio é: “Santo”, caso contrário o homem não poderia jamais temer a essência divina. Mas, é o sentimento de amor que se interpõe como laço de união entre a perfeição de Deus e a imperfeição do homem, entre o ser sem pecado e o pecador. O amor é o próprio Deus e sem ele não há Deus. Deus é a própria lei moral, mas pensada personificadamente, pois Deus exige que o homem seja como Deus: um filho perfeito. No entanto Deus está diferenciado na razão, na moral e no coração. Deus na razão julga; Deus na moral exige a vontade de um comportamento reto e bom; Deus no coração perdoa e ama com um sentimento universal.

O Mistério da Encarnação ou Deus como Entidade do Coração

No 5° capítulo, intitulado “O mistério da encarnação ou Deus como entidade do coração”, Feuerbach explicita que o amor objetivado do humano é o mistério da encarnação, porque “O Deus encarnado é o fenômeno do homem endeusado” (pág. 93). Mas, a elevação do homem a Deus tem como conseqüência o rebaixamento de Deus ao homem. Deus é apresentado por Feuerbach como ser do coração em duas perspectivas: Deus como sujeito do amor objetivado ao homem, cujo exemplo é a encarnação, e o Deus amor como predicado, onde Deus é superior pelo amor infinito, por isso é superior ao fenômeno da encarnação, cuja exemplificação é a oração. A consciência do amor é aquela através da qual o homem se concilia com Deus, ou melhor, consigo, com a sua essência, que ele, na lei, contempla como uma outra essência. A consciência do amor divino ou a contemplação de Deus como um ser humano é o mistério da encarnação, do Deus que se torna carne e homem. A encarnação é apenas o fenômeno real, sensorial da natureza humana de Deus. Não foi por sua própria causa que Deus se tornou homem, mas pela necessidade do homem. A religião estabelece como verdade uma profunda incompreensibilidade: Deus é, ou se torna homem. Essa contradição ocorre porque, confunde os atributos da razão com os do coração. Mas trata-se aqui apenas de um Deus que já em essência é um ser misericordioso, um atributo humano do coração elevado a um atributo da razão. Na doutrina da igreja é dito que não é a primeira pessoa (Deus) que encarna, mas é a segunda pessoa (Cristo). Por isso a afirmação de que a encarnação é um fato puramente empírico ou histórico sobre o qual só se instruí através de uma revelação teológica, é um depoimento do mais estúpido materialismo religioso, porque a encarnação é uma conclusão que se baseia numa premissa muito compreensível. Mas igualmente absurdo é querer deduzir a encarnação de motivos puramente especulativos, metafísicos e abstratos, porque a metafísica pertence somente à primeira pessoa, que não é uma pessoa dramática. Nesse exemplo se evidencia como a antropologia diverge da filosofia especulativa. A antropologia não considera a encarnação como um mistério especial, como faz a especulação ofuscada pelo brilho místico. A antropologia destrói a ilusão que se esconde - o sobrenatural; ela critica o dogma e reduz seus elementos naturais, inatos ao homem, em sua origem e cerne íntimo – o amor.

O Mistério do Deus Sofredor

No 6° capítulo, intitulado “O mistério do deus sofredor”, Feuerbach questiona: Deus e Amor – O que nos mostra o dogma? Qual o seu significado? Deus é um ser diverso do Amor? Feuerbach adverte que Deus aparece como predicado e como plenipotência. Tudo inicia quando Deus envia seu filho unigênito por amor, Deus passa a aparecer como predicado e não mais como sujeito. Concomitantemente, Deus aparece sob um novo poder obscuro, de que tudo pode. Por outro lado o amor só é essencial porque é o sujeito, e é essa a condição da encarnação, em outras palavras é o Amor que leva Deus à exteriorização da sua divindade. Observemos que Deus não se nega na encarnação, mas apenas se mostra como é, como ser humano. Não pela sua divindade enquanto tal (Deus é amor), mas pelo amor, pelo predicado que veio a divindade e mostra que o amor é um poder mais elevado do que o da divindade. Então o amor vence Deus. A indagação imediatamente posta é: Quem é nosso redentor Deus ou o Amor? – O Amor, porque Deus enquanto Deus não nos redime, mas o amor, que está acima da distinção entre personalidade divina e humana. Daí porque Feuerbach anuncia: Assim como Deus renunciou a si mesmo por amor, devemos também renunciar a Deus pelo amor, porque se não renunciarmos a Deus por amor, renunciaremos ao amor em nome de Deus e teremos, ao invés do predicado do amor, o Deus, a entidade cruel do fanatismo religioso (de que tudo pode). Ou então transpomos Deus para o amor, pois o que amor em Deus é o amor pelo homem. O que no íntimo é um amor a si mesmo. Para a religião cristã a oração revela o mistério da encarnação, que toda oração é de fato encarnação de Deus. Mas, Feuerbach adverte que a encarnação não é algo divino, e sim humano. Portanto, ao rezar o homem atrai Deus para as suas desgraças, tona-o partícipe dos seus sofrimentos e necessidades. Então, Deus escuta e é misericordioso, porque ama o homem. Porém, nessa atitude o homem entrega sua finitude e todas as suas possibilidades. Pois amor como sujeito refere-se ao sentimento humano objetivo e o amor como predicado refere-se ao além, ao absoluto, a plenitude do amor universal.

O Mistério da Trindade e da Mãe de Deus

No 7° capítulo intitulado “O mistério da trindade e da mãe de Deus”, Feuerbach explica que só satisfaz ao homem um Deus pleno. Essa totalidade de Deus é constituída de sensibilidade, razão e vontade. Essa trindade contém um mistério: o sofrimento. Cristo é o Deus humano e como tal, uma das suas qualidades essenciais é a Paixão. Em Cristo o amor se mantém pelo sofrimento. Deus enquanto Deus é o cerne de toda a perfeição humana, Deus enquanto Cristo é o cerne de toda a miséria humana. O sofrimento é o sumo mandamento do cristianismo – a história do cristianismo é a própria história da humanidade. Deus é sofredor porque é humanamente perfeito em Cristo. Mas, Deus também é amor. Todavia, o amor se mantém pelo sofrimento, aí está a base da redenção. O sofrimento redime, por isso, o Cristianismo é a religião do sofrimento. O mistério de Deus que sofre é então o mistério do sofrimento: um Deus que sofre é um Deus sensível e esse sofrimento de Deus é pelo homem, é por um outro ser que não ele mesmo, daí ser um sentimento nobre, de amor. Deus é um ser sensível. O sentimento é de natureza divina. Eu sinto e o sentimento é algo pertencente a minha essência. Se o sentimento é para ti uma qualidade excelente, é ele para ti exatamente por isso uma qualidade divina - Deus é o espelho do homem. Para o cristão parar de sofrer é querer ser mais, ou melhor, do que Deus, já que o próprio Deus sofreu por ele. Sofrer então, é compartilhar do sofrimento de Deus. Somente a ação objetiva é a unidade da atividade teórica e prática, somente ela oferece ao homem um fundamento ético, caráter. Por isso mesmo, todo homem deve ter um deus, estabelecer uma meta, um propósito. Quem possui um propósito possui uma lei sobre si, pois é alguém que não só se conduz como também é conduzido. Quem tem um propósito, uma meta verdadeira e essencial, tem uma religião. Não no sentido teológico, mas no sentido da razão, do sentimento da verdade. Só satisfaz ao homem um Ser Total. Deus é um ser de razão (consciência de si), sentimento (amor) e vontade (paixão). A pretensão que o homem tem de si mesmo em sua totalidade é trina. A consciência em si mesma tem para o homem um significado pleno, por isso Deus tem consciência Absoluta. A objetivação da consciência de si é a primeira qualidade que encontramos na trindade (consciência de si é a pura interioridade, é entendimento objetivado, é luz). O amor é a auto-afirmação do coração. Deus cria e ama os homens somente no Filho e por causa do filho. O filho ou Cristo é gerado e ama no sentido figurado, pois foi enviado. O Espírito Santo ama acolhendo e complementando a trilogia do amor. A paixão representa o amor da Mãe ou Maria ao Filho. O mistério da trindade é: Pai – Deus - 1ª pessoa, razão, amor, luz, designa a morte; Filho – Cristo – amor, amado, princípio de paridade da vida comunicativa, é o que morre; Mãe – Espírito Santo – Maria - paixão, representa o anseio da criatura por Deus, a essência materna, inconsolável com a morte do filho. O amor é a auto-afirmação do coração. Deus cria e ama os homens somente no filho e por causa do filho. O filho ou Cristo é gerado e ama no figurado, pois foi enviado. O Espírito Santo ama acolhendo e complementando a trilogia do amor. O Deus trino é o deus do catolicismo e só tem um significado interno. O Deus trino é um deus rico de conteúdo. Quanto mais vazia for a vida, tanto mais rico e mais concreto será o deus. Somente um homem pobre possui um Deus rico. Deus nasce do sentimento de uma privação, daquilo que o homem se sente privado, é para ele Deus. O desesperado sentimento de vazio e de solidão necessita de um Deus no qual exista sociedade, união entre os seres que se amam intimamente. Daí a razão pela qual a trindade ao longo dos tempos veio perdendo a sua importância prática e finalmente também a teórica. O protestantismo não valoriza a trindade e uma parte da igreja Católica alija a figura de Maria.

O Mistério do Logos e da Imagem Divina

No 8° capítulo, intitulado “O mistério do logos e da imagem divina”, Feuerbach enfatiza que a importância essencial da trindade para a religião concentra-se sempre na essência da segunda pessoa Filho, Cristo. O Deus verdadeiro e real de uma religião é sempre chamado de mediador e efetivou o mistério da encarnação, porque somente este é o objeto imediato da religião. Deus Pai existe por trás do Deus Filho, porque o Deus é razão fria, é objeto, ao passo que Cristo é a essência objetiva da fantasia e predominantemente imagem. O homem enquanto um ser emotivo e sensorial só é dominado e satisfeito pela imagem. O homem fabrica uma imagem de Deus, transformando a entidade abstrata da razão, a entidade do pensamento, num objeto dos sentidos ou numa entidade da fantasia. Mas ele coloca esta imagem no próprio Deus, porque naturalmente sua necessidade não seria correspondida se não conhecesse esta imagem como uma verdade objetiva, se fosse para ele apenas uma imagem subjetiva, diversa de Deus, feita pelo homem. * Razão = Logus: é objeto do pensamento, é pensamento imaginado, o poder da palavra é o poder da imaginação, tem poder redentor, conciliatório e libertador, Deus é a essência objetiva. * Imagem # Primeira característica: é sensorial, gera a crença, Cristo é a imagem que substitui Deus, assim Cristo se torna o resplendor da fantasia, a imagem querida do coração. # Segunda característica: a trindade centra mais em cristo, confirma-se que a religião através da palavra toma a aparência pela essência e acaba por seduzir. O que gera a diferença da palavra humana (é transmitida) e da palavra cristã (obra, milagre). A religião reduz o significado da palavra e a torna transcendente.

O Mistério do Princípio Criador do Universo em Deus

No 9° capítulo, intitulado “O mistério do princípio criador do universo em Deus”, Feuerbach esclarece que Deus é gerador porque objetiva a unidade de consciência percebendo o que é idêntico e o que não é e porque objetiva a consciência de si – percebe-se como gerador da espécie (é o próprio homem) e é espiritual (a trindade). O engano dos filósofos e teólogos é colocar Deus Pai como criador, pois acabam por fazer da razão divina o fundamento da matéria real. O que gera a diferença entre criador e criatura, mas essa distinção é apenas formal e não essencial.

O Mistério do Misticismo ou da Natureza em Deus

No 10° capítulo, intitulado “O mistério do misticismo ou da natureza em Deus”, Feuerbach explica que as formas distintas da existência: Deus, Homem e Natureza são criações do pensamento humano. Os filósofos e teólogos cristãos defendiam Deus Pai como Criador. Com esse posicionamento eles fizeram da Razão Divina o fundamento da matéria real. A conseqüência dessa noção de deus Criador do Universo foi a separação entre criador e criatura. Portanto, para feuerbach essas diferenças entre deus Homem e Natureza são apenas formais, porque são criações do pensamento e não aceitas como real, não porque são corretas, mas porque são produtos do pensamento e tidos como verdadeiro: Deus é razão, Inteligência; Natureza é irracional, desejo, sexo, conflito; Homem é Consciência (porque contém a Inteligência divina) e é sexualidade (porque contém a natureza natural). Explicando o posicionamento de Jacobi Böhme, Feuerbach diz: a doutrina da natureza em deus pretende fundar o Deísmo - religião natural fundada na manifestação natural que a divindade faz de si à razão do homem e considera o ente supremo como um ser pessoal. As teses fundamentais são: 1- a religião não contém nem pode conter nada de irracional; 2- a verdade da religião revela-se, portanto, à própria razão e a revelação histórica é supérflua; 3- as crenças da religião natural são, portanto, poucas e simples - a existência de Deus, a criação e governo divino do mundo, e a remuneração do mal e do bem em vida futura – através do naturalismo. Feuerbach elabora seu posicionamento crítico aos filósofos, aos místicos e aos teólogos. O deísmo pessoal imagina Deus abstraído de tudo que é material (homem e natureza) e para Feuerbach é a natureza em Deus e no homem uma entidade de fato inseparável, porém diversa. No materialismo de feuerbach ele observa que a relação entre deus, homem e natureza não se processam naturalmente, porque é uma relação de utilidade, portanto artificial, de dependência (pela Vida) e transforma os objetos naturais com significados em puras abstrações (ou seja, o significado de Deus é transubstancializado – no Egito, o gato; na Índia, o boi). Ocasionando a idéia de que o que os sentidos fazem é interpretar os significados a partir de uma disposição do sujeito. Feuerbach considera mística a perspectiva dos filósofos e teólogos porque a doutrina da natureza em Deus pretende fundar o deísmo através do naturalismo. Mas o deísmo pessoal imagina Deus abstraído de tudo que é material e para Feuerbach a natureza em Deus, uma entidade de fato inseparável dele, porém diversa.

O Mistério da Providência e da Criação a Partir do Nada

No 11° capítulo, intitulado “O mistério da providência e da criação a partir do nada”, Feuerbach esclarece que a criação e a providência só se revelam no milagre da encarnação, porque a essência é a vontade, a imaginação ilimitada e o nada (pois esses três aspectos significam o poder da arbitrariedade e da plenipotência tão almejadas pelo homem para se tornar absoluto). A criação é a palavra de deus pronunciada, a palavra interior, idêntica ao pensamento. Pronunciar é um ato de vontade, a criação é então um produto da vontade. Assim como o homem afirma no verbo divino a divindade do verbo, afirma ele na criação a divindade da vontade, na verdade não da vontade da razão, mas da vontade da imaginação, da vontade absolutamente subjetiva, ilimitada. O mais elevado clímax do princípio da subjetividade é a criação a partir do nada. Assim, como a eternidade do mundo apenas significa a essencialidade da matéria e a nulidade do mundo. O princípio do mundo é também o princípio do seu fim. A existência ou a não existência depende somente da vontade. A existência do mundo é uma existência momentânea, arbitrária, insegura, isto é, exatamente uma existência nula. A criação a partir do nada é a mais alta expressão da plenipotência. Mas a plenipotência é apenas a subjetividade liberta de todas as limitações objetivas e que festeja a sua liberdade como o mais alto poder e essência: o poder da arbitrariedade. Daí o aparecimento do Milagre como uma criação original e sobrenatural. A providência é a suprema sabedoria com que Deus conduz as atitudes e atos. Portanto, porque a origem dos três reside na vontade do sentimento de exteriorização da natureza subjetiva. É o homem a meta e a base da criação, do milagre e da providência. O homem é a meta porque é o princípio, a realidade e a existência da imortalidade (só o homem verbaliza a eternidade) e o homem, também é a base porque é a essência abstrata que distingue como um outro ser pessoal e busca a conservação de si e do mundo. Para Feuerbach, o criador do mundo é o próprio homem que dá a si mesmo, através da prova ou da consciência de que o mundo foi criado (uma prova da vontade, uma existência impessoal, nula), a certeza da própria importância, verdade e infinitude. Deus é o conceito ou a idéia da personalidade enquanto pessoa; é a subjetividade; é ser-para-si-mesmo, auto-suficiente, posto como essência e existência absoluta. Feuerbach estrutura suas críticas ao panteísmo e ao personalismo por encobrir a verdadeira essência da criação: a antropologia.

O Significado da Criação no Judaísmo

No 12° capítulo, intitulado “O significado da criação no judaísmo”, Feuerbach explica que a criação no compreendido como mero ato imperativo, pois o princípio da criação no judaísmo é o egoísmo e não tanto a subjetividade. A criação a partir do nada, isto é, a criação como mero ato imperativo, só tem sentido na origem do princípio prático e na indomável violência do egoísmo hebreu. O egoísmo é o deus que não decepciona seus servos. O egoísmo é essencialmente monoteístico, porque ele só tem uma coisa como meta: a si mesmo. O egoísmo recolhe, concentra o homem sobre si mesmo: ele lhe fornece um princípio da vida sólido, denso, mas limita-o teoricamente, porque é indiferente a tudo que não se relacione imediatamente com seu próprio bem-estar. Por isso, a ciência ou a arte só surge do politeísmo. O monoteísmo rouba aos israelitas o impulso e o sentido livre presente nos gregos. Há uma mudança significativa de concepção de mundo e não apenas de conceituação entre gregos e judeus. Os gregos contemplavam teoricamente (como estética e como filosofia primeira) a natureza e compreendia que esta havia sido gerada e não criada, pois o conceito de mundo vale tanto quanto o conceito de cosmos, de majestade ou de divindade. Os judeus e os israelitas só se colocam do ponto de vista prático, a natureza por si e em si mesma nada é, significa a visão: a natureza ou o mundo foi criado, fabricado, é um produto de um imperativo da vontade. O utilitarismo, a noção de utilidade, é característica fundamental do judaísmo. A crença numa providência divina especial, no milagre ou na utilidade é a crença numa providência divina especial, no milagre ou na utilidade é a crença característica do judaísmo; mas observa Feuerbach que a crença em milagres existe quando a natureza é encarada somente como um objeto da arbitrariedade, do egoísmo que utiliza a natureza para fins arbitrários. Feuerbach estabelece um paralelo entre gregos e judeus: Gregos – desenvolvem a contemplação e a reflexão; foram idolatras, mas não diferenciam a contemplação da adoração; os deuses são imanentes e respeitados. Judeus – desenvolvem o sentimento drástico; elevam idolatria à compreensão; Deus é transcendente e temido.

A Onipotência da Afetividade ou o Mistério da Oração

No 13° capítulo, intitulado “A onipotência da afetividade ou o mistério da oração”, Feuerbach procura demonstrar que a essência da religião é a oração, porque na oração o homem objetiva seu coração. O papel da oração é primeiramente, efetivar os desejos e satisfazer as vontades, em segundo lugar transformar o curso natural dos acontecimentos, em terceiro reencontrar o coração com a essência e por último, gerar felicidade. Para isto, existem duas condições básicas para efetivar a oração: A Força – sentimento de dependência num ser absoluto e o Amor – um estado de confiança incondicional. Na oração o homem expressa abertamente aquilo que o oprime e adora a si próprio, à medida em que contempla a essência de sua afetividade como o ser mais elevado.

O Mistério da Fé - O Mistério do Milagre

No 14° capítulo, intitulado “O mistério da fé – o mistério do milagre”, Feuerbach explicita que a essência da religião é a oração, porque na oração o homem objetiva seu coração. O papel da oração é: efetivar os desejos e satisfazer as necessidades; transformar o curso natural dos acontecimentos; reencontrar o coração com a essência; gerar felicidade. As condições para efetivar a oração: sentimento de dependência em um ser absoluto – Força e confiança incondicional – Amor. Na oração o homem expressa abertamente aquilo que o oprime e adora a si próprio, à medida que contempla essência de sua afetividade como ser mais elevado. O objeto característico da fé é a fé no poder da oração, a qual é idêntica a fé no poder do milagre e a fé num milagre é idêntica a essência da fé em geral. Só a fé ora. Só a oração da fé tem poder. A fé verdadeira não tem dúvida a dúvida só surge quando ultrapassa os limites da subjetividade, isto é, quando concedo verdade ao que está fora do sujeito de maneira limitada e só procuro ampliar os meus limites através dos outros fora da minha subjetividade, portanto, a fé é a crença na divindade do homem. A fé é um estado do coração no qual atribuímos tudo de bom a Deus. Uma tal fé em que o coração deposita toda a sua confiança e Deus, para que a fé exista apenas em Deus, faz necessário um subjetividade ilimitada. É em busca dessa ilusão que o homem inventa a Deus. A fé do homem em Deus coincide com os desejos humanos, daí a trindade fé, amor e esperança. Que és desejo sobrenatural realizado de modo imediato. Por isso o poder do milagre é o poder da imaginação é uma atividade finalística e sem limitação. A afetividade é a característica essencial do milagre, pois sem dúvida o milagre provoca também uma impressão sublime e arrebatadora enquanto expressa o poder da fantasia. Da afetividade sai o milagre e para a afetividade ele volta. O milagre é afetivo porque exatamente satisfaz o desejo do homem sem esforço. Feuerbach constata que com o cristianismo o homem perdeu o sentimento e capacidade de pensar-se dentro da natureza de modo espontâneo, pois o homem passou a crer na revelação. Para os filósofos, a explicação do milagre pela afetividade e pela fantasia é superficial, porque o milagre expressa o poder mágico que realiza sem obstáculos todos os desejos do coração.

O Mistério da Ressurreição e do Nascimento Sobrenatural

No 15° capítulo, intitulado “O mistério da ressurreição e do nascimento sobrenatural”, Feuerbach evidencia o mistério da ressurreição e do nascimento sobrenatural refere-se a um sentimento subjetivo. O homem tem o desejo de si eternizar de não morrer, e esse desejo negativo torna-se positivo quando é idêntico a um instinto de conservação. Esse desejo da imortalidade a razão não pode realizar a questão imortalidade é vista: pelos pagãos para os quais a imortalidade não esta ligada diretamente ao pensamento e sim ao fundamento da vida e pelos cristãos para os quais a imortalidade foi transformada na ressurreição e no nascimento sobrenatural de Cristo. Gestado no mistério da fé, um mistério moral da vida. A moral católica é cristã, mística, porém a moral protestante é racionalista. A moral católica conservou a ressurreição ou imortalidade pessoal como um fato sensorial indubitável, bem como, conservou o mistério da virgindade imaculada, estabelecendo um sentimento especial e subjetivo. Assim o homem subjetivo transforma os seus sentimentos em um critério do que deve ser. Ao passo que a moral protestante é e foi uma união carnal do cristão com o homem vivenciando a contradição entre fé e vida e por isso se tornou a fonte ou a condição da liberdade.

O Mistério do Cristo Cristão ou do Deus Pessoal

No 16° capítulo, intitulado “O mistério do Cristo cristão ou do Deus pessoal” é que Feuerbach põe a limpo que a essência do cristianismo é a essência da afetividade ou do sentimento, pois a afetividade é o eu determinado por si mesmo, mas como se fosse determinado por outro ser – o eu passivo. Eu sou passivo do meu próprio ativo. À vontade e a ação, o desejo e a realidade, o rendido e o redentor, efetivam o Deus-feito-homem: é melhor ser libertado e redimido por um outro do que libertar-se a si esmo, pois se sabe amado por Deus e não apenas amado por si mesmo. O fato do homem, ser pensado por Deus é efetivo. Por isso que para Feuerbach a afetividade é o sonho de olhos aberto e a religião é o sonho da consciência desperta, assim o sonho é a chave para os olhos aberto e a religião é o sonho da consciência desperta, assim o sonho é a chave para os mistérios da religião. O homem ser Salvo por Deus, é o maior desejo, o supremo triunfo do coração. Cristo é a prova desse desejo, o supremo triunfo do coração. Cristo é a prova desse desejo realizado da religião, pois a meta da religião é que Deus, em si nada mais é que a essência do homem, também seja realizada como objeto. A encarnação de Deus com essa intensidade só tem para os cristãos, porque ele almeja um Deus subjetivo, afetivo e pessoal; que dê provas de um homem real, que fluir sangue de seu corpo na cruz. Assim expressa sentimento e sentimentalidade, ligando pelo coração, Deus e homem em Cristo.

A Diferença entre Cristianismo e Paganismo

No 17° capítulo, intitulado “A diferença entre cristianismo e paganismo”, Feuerbach visa diferenciar o fundamento e o campo de ação entre as duas doutrinas filosóficas: Cristianismo: o homem se encontra em si mesmo, separa-se da conexão com o universo, transforma-se num todo autosuficiente. Eram autoritários e ditatoriais; A religião é individualista, Deus é o conceito de gênero individualizam a razão, Há uma unidade entre gênero e espécie, Pensa a plenitude. Paganismo: o homem não se concentra em si, não se esconde da Natureza, celebravam a inteligência, eram liberais. Está em conexão com o coletivo, Deus é a essência do homem, a essência é universal, há o monismo, pensa a completude.

Significado Cristão do Celibato Livre e da Classe Monástica

O objetivo do 18° capítulo, intitulado “O significado cristão do celibato livre e da classe monástica”, é explicitado no primeiro parágrafo. O conceito de gênero e com ele o significado da vida-gênero havia desaparecido com o cristianismo. A conseqüência: Quando o homem anula a diferença entre gênero e indivíduo e estabelece essa unidade como Deus, quando então a idéia de humanidade só é objeto para ele como idéia de divindade, então desaparece a necessidade da cultura; o homem tem tudo em si, tudo em Deus, logo, nenhuma necessidade de se completar através do outro é real. Só Deus é a necessidade do cristão, junto a ele não há carência, necessidade nem primeira do outro, do gênero humano, do mundo. Deus é a subjetividade absoluta, uma subjetividade dissociada da matéria, abstraída da vida-gênero e por isso mesmo da diferença sexual. A meta da vida monástica (obediência) e de celibato (castidade) é a aceitação plena de que a vida celestial é a vida verdadeira e que a vida terrena serve para viabilizar a purificação e a salvação do ser humano. A vida monástica e ascética em geral é a vida celestial da maneira da Meira que ela pode se manter e se conservar através da obediência. A vida celestial legitima ao mesmo tempo uma lei da fé e uma lei moral: não é permitido se prender às coisas transitórias deste mundo. A morte é ingresso no céu. Mas, se a morte é a condição para a felicidade e a perfeição moral, então é necessariamente a única lei da moral. A morte é a antecipação necessária da morte natura. Portanto, a morte deve ser elevada a um ao moral, a um ato de auto-atividade. O amor que o cristão tem por Deus não é um amor geral (como um amor à justiça, a verdade, a ciência...) é o amor a um Deus subjetivo, pessoal. As características desse amor são exclusividade, a unicidade e a significação plena. O celibato é uma condição necessária para o verdadeiro cristão. Pois o cristão anula a diferença sexual como um apêndice incômodo, casual. Quando o cristão sente necessidade do amor sexual, é sempre uma necessidade contraditória ao seu designo celestial; não como uma necessidade moral íntima. Quanto ao casamento só é aceito no Antigo Testamento e num sentido moral e não religioso. Para Feuerbach a castidade e a obediência transcendental fazem com que o homem peca a liberdade humana e reduz a sexualidade a um fator biológico. Por outro lado, incentiva o ser humano a se entregar a uma mor em nome da salvação da alma alheio à sua vida real.

O Céu Cristão ou a Imortalidade Pessoal

No 19° capítulo, intitulado “O céu cristão ou a imortalidade pessoal”, Feuerbach quer demonstrar que o sentido original e verdadeiro da Religião é a crença no além. E o conteúdo do além é a crença na libertação das limitações da natureza por parte da subjetividade. O céu é o paraíso, o estado de purificação e a certeza na plenitude. O conceito de Imortalidade se funde no conceito de Deus, pois Deus é a vida imortal. E só Deus é o penhor da existência futura de ser humano, porque Ele já é a certeza da minha existência presente, da minha Salvação, é o meu consolo, é a minha proteção, então só através Dele é possível deduzir a imortalidade, não para demonstrá-la como verdade à parte, mas para eu crer e entregar-se a Ele. Pois Deus é a vida imortal. E só Deus é o penhor da existência presente, da minha Salvação, é o meu consolo, é a minha proteção então só através Dele é possível deduzir a imortalidade, não para demonstrá-la como verdade à parte, mas só Deus é a consciência daquilo que é em si mesmo. Para Feuerbach essas cisões de terra e céu, de fé e razão, de corpo e alma, (...), distancia o homem cada vez mais da sua natureza humana e a crença no além é apenas a crença na verdade da fantasia, assim como a crença em Deus é a crença na verdade e na infinitude da afetividade humana. Todavia, ao se preocupar em definir Deus, o que a religião de fato executa é uma redução à essência extra mundana de Deus às partes componentes da essência humana como suas partes componentes fundamentais. Assim, o tiro sai pela culatra e o homem e não o Deus é o princípio, meio e fim da religião.

2.2. 2ª PARTE - A ESSÊNCIA FALSA, ISTO É, TEOLÓGICA DA RELIGIÃO

A segunda parte d’A Essência do Cristianismo constitui uma negativa, onde Feuerbach destaca as contradições implícitas na existência de Deus e em pontos fundamentais do cristianismo, demonstrando a religião como a relação que o homem tem com a sua própria essência, o que significa que ao visar a Deus o homem busca a si mesmo.

O Estágio Essencial da Religião

No 20° Capítulo, intitulado “O estágio essencial da religião”, Feuerbach procura demonstrar que a meta da religião é a salvação do homem. Neste sentido Deus tem uma finalidade prática e toda a relação do homem com Deus é visando única e exclusivamente alcançar a sua salvação. A religião cristã é a doutrina da salvação. Mas no cristianismo a salvação somente se dá através da infelicidade pois a felicidade mundana afasta o homem de Deus. São os sofrimentos e as doenças que reconduzem o homem a Deus. O prazer e a alegria expandem o homem, já a infelicidade e a dor o oprimem. Como o medo de não ser salvo obriga o homem a crer, é justamente aí que surge a necessidade da busca de Deus, através da religião. Deus é essencialmente um objeto exclusivo da religião, expressando isso de forma prática. Já a religião não faz apelo a razão, mas a afetividade. A religião não é uma entidade da razão mas sim da afetividade, pois apela ao instinto de ser feliz, aos sentimentos de medo, esperança, ao medo do inferno, a tudo aquilo que obriga a necessidade de crer. Mas o conceito mais elevado, a essência superior da religião é Deus. Sendo assim, o supremo delito é duvidar de Deus ou duvidar de que existe um Deus. Tudo que é bom e que surpreende o homem espontaneamente, que vai além da consciência prática, vem de Deus e tudo que é ruim, mau, nefasto, que surpreende espontaneamente em seus propósitos morais ou religiosos, vem do diabo. O demônio é o negativo, o mal que vem da essência não da vontade. Deus é o positivo, o bem que vem da essência não da vontade consciente. Tanto Deus quanto o diabo têm a mesma origem, somente a qualidade dessa energia é que é diversa ou oposta. Por isso mesmo a crença no demônio estava intimamente relacionada com a crença em Deus até tempos recentes, de forma que a negação do demônio era tida como ateísmo assim como a negação de Deus. Para Feuerbach a idéia do perfectum no sentido da essência de tudo o que foi criado, e que reporta a divindade de tudo que surgiu naturalmente e que está presente na natureza, é o que expressa a totalidade de um sentido religioso original, pois o espírito da religião surgiu justamente de um passado onde a atuação de Deus é compreendida dentro desta idéia maior de perfeição, unicidade e harmonia. A religião é anulada quando se introduz entre Deus e os homens a concepção do mundo, das chamadas causas intermediárias. A causa intermediária é uma capitulação da inteligência descrente diante do coração ainda crente. O que rompe a harmonia da conexão do homem com Deus é a introdução da concepção do mundo de forma racionalizada “uma capitulação da inteligência descrente diante do coração ainda crente”. A religião só toma conhecimento da existência das causas intermediárias, das coisas que estão entre Deus e o homem, através da contemplação sensorial, natural, portanto irreligiosa ou pelo menos não religiosa, uma contemplação que ela no entanto abate ao fazer das atuações da natureza as atuações de Deus. Mas a esta idéia religiosa contradiz a razão e o nexo natural, que concede as coisas naturais uma autonomia real. É justamente a partir daí que a religião passa a fazer da inegável atuação das coisas uma atuação de Deus através dessas coisas. “O essencial, o principal é aqui Deus e o não-essencial, o supérfluo é o mundo”. Por outro lado quando as causas intermediárias são postas em atividade, a coisa muda, passando a natureza a ser o essencial e Deus o não essencial. Deus é aqui um ser somente hipotético, derivado, não mais absolutamente necessário, original, mas apenas um ser surgido da dificuldade de uma razão restrita, para a qual a existência de um mundo por ela transformado numa máquina é inexplicável sem um princípio autonomo. Deus não existe por si, mas por causa do mundo, só existe para explicar a causa primeira do mundo máquina. O homem racional limitado se choca com a existência do mundo originalmente autônoma porque ele só a considera sob o ponto de vista subjetivo-prático, só em sua generalidade, só como uma máquina, não em sua majestade e imponência, não como cosmos. Com o choque que isto causa o homem passa a conceber para o mundo uma origem mecânica. A concordância entre a consciência religiosa e a mecânica é apenas na concepção de que o mundo é um mero produto da vontade, ou seja, ele foi feito, não se fez sozinho, pois o mecanicismo só necessita de Deus para o fabrico do mundo, o mecanicista interrompe e abrevia a atividade de Deuas através da atividade do mundo, enquanto que a religião só faz o mundo para mantê-lo sempre na consciência da sua nulidade, da sua dependência de Deus. A criação é para o mecanicista o último fio delgado que ainda une a religião a ele. A religião para a qual a nulidade do mundo é uma verdade presente é para ele apenas a reminiscência da juventude. Por isso transporta ele a criação do mundo, o ato da religião, o não-ser do mundo para a distância, o passado, enquanto que a autonomia do mundo que envolve todo o seu pensar e agir, atua sobre ele com o poder do presente. Tal qual como a criação no sentido mecanicista, o mesmo acontece com os milagres que se pode aceitar, porque de fato existem, pelo menos na opinião religiosa, mas que só podem ser aceitos quando transportados para o passado, pois no presente ele exige tudo de modo natural. Quando já se perdeu alguma coisa pela razão, pelos sentidos, quando não mais se crê em algo de modo espontâneo, mas só se crê porque se crê, porque deve se crer na coisa por algum motido. Quando uma fé é internamente passada, então transporta-se também externamente o objeto da fé para o passado. Com isso a descrença se liberta, mas ao mesmo tempo ainda concede à crença um direito pelo menos histórico. O passado é aqui o feliz remédio entre crença e descrença. Da mesma forma, a criação é uma ação imediata de Deus, um milagre, pois não existia nada ainda, exceto Deus. Mas, o mecanicista evita o contato imediato com a divindade, ao transformar o presente, inserindo milênios entre a sua concepção natural ou materialística e entre a idéia de uma ação imediata de Deus. No sentido da religião éo contrário, Deus é o conceito que supre a falta da teoria. Ele é a explicação do inexplicavel que nada explica porque deve explicar tudo sem distinção. Deus é a noite da teoria mas que torna claro o espírito. O ato esencial da religião, no qual ela confirma o que denominamos como sua essência, é a oração. A oração é onipotente porque o que o devoto deseja com a oração, Deus realiza. Mas o devoto não pede só coisas espirituais, pede também coisas que estão fora dele, em poder da natureza. Deus não é para ele a causa distante, primeira, mas a causa atuante mais próxima, direta, de todos os fenômenos naturais. Todas as chamadas forças e causas intermediárias não são nada para ele na oração, se fossem algo para ele, o poder, o fervor da oração iria fracassar diante delas. O devoto quer ajuda imediata. Ele se refugia na oração com a certeza de que a oração possui poderes sobre-humanos e sobrenaturais. Na oração ele dirige-se diretamente a Deus. Deus é para ele portanto, a causa imediata, a oraação atendida, o poder que realiza a oração. A atuação imediata de Deus é um milagre, é por isso que o milagre está necessariamente ligado à concepção da religião. A religião explica tudo de maneira milagrosa, pois quando começa a religião, começa o milagre. Toda oração verdadeira é um milagre, um ato de poder milagroso. Mas os milagres só acontecem em casos extraordinários, quando o espírito está exaltado. Por isso existem também milagres de cólera. Com sangue frio nenhum milagre é realizado. É na exaltação que se manifesta a intimidade. O homem não ora semre com o mesmo fervor e intensidade, é por isso que muitas orações acabam sendo mal sucedidas. Somente a oração muito sentida manifesta a essência da oração. É o mesmo o que acontece com os milagres. Milagres acontecem quando o desejo do devoto por tal coisa reflete a essência da oração, algo imbuido de uma força divina. Na religião o homem coloca necessariamente a sua essência fora de si, coloca a sua essência como uma outra essência. Deus é o seu outro eu, sua outra metade perdida, na qual ele se completa. Só em deus o homem é total. Deus é para ele uma necessidade, quando lhe falta algo que ele não sabe o que é, Deus é este algo que falta, é o indispensável para ele, pois Deus pertence a sua essência.

A Contradição na Existência de Deus

No 21° Capítulo, intitulado “A contradição na existência de Deus”, Feuerbach explica que a religião é o relacionamento do homem com a sua própria essência, mas com a sua própria essência não como sendo sua, mas de um outro ser diverso dele, até mesmo oposto. Demonstra que esta é a grande inverdade criada pela religião, a base de todas as crueldades e tragédias da história da sua história. Diz que a concepção da essência humana como uma outra essência é originalmente uma concepção infantil, ingênua, que distingue Deus do homem e que acaba identificando-o novamente com o próprio homem. Mas quando a religião aumenta em razão com o passar dos anos, quando surge dentro da religião a reflexão sobre a religião, então a conciência da unidade da essência divina com a humana começa a desaparecer. Ou seja, quando a religião se torna teologina a cisão inicialmente expontânea entre Deus e o homem dá lugar a uma dissipação na conciência de tal unidade. Por isso, quanto mais proxima a religião estiver da sua origem, tanto mais verdadeira e sincera ela será, tanto menos ocultará ela esta essência. O primeiro modo quanto ao conceito pelo qual a reflexão sobre a religião, a teologia transforma, coloca fora do homem a essência divina numa outra essência, é a existencia de Deus, que é transformada numa prova formal. As provas da existência de Deus foram declaradas como contraditórias à essência da religião, quando a formação da demonstração. A religião apresenta imediatamente a essência interior do homem como uma essência diversa, objetiva. O ser mais perfeito é o ser acima do qual não pode ser pensado nenhum mais elevado e Deus é o que há de mais elevado que o homem pensa e pode pensar. Este é o princípio fundamental da prova ontológica da existência de Deus, a premissa que expressa o que há de mais secreto na essência da religião, ou seja, que Deus é o que há de mais elevado para o homem, além do que ele não pode abstrair mais, aquilo que é o limite essencial da sua razão, da sua afetividade, da sua intenção. É esta supremacia que garante a sua existência. O contraditório ao sentido religioso está somente no fato da existência ser pensada separadamente, surgindo daí a ilusão de que Deus seria um ser somente pensado, existente na idéia, ilusão esta que é imediatamente suprimida, pois a demonstração prova exatamente que Deus é um ser diverso do pensado, um ser exterior ao homem, ao pensamento, um ser real,um ser por si. As provas da existência de Deus têm por meta exteriorizar o interior, separá-lo do homem. Através da existência torna-se Deus uma coisa em si. Deus não é somente um ser para nós, um ser em nossa fé, em nossa afetividade, em nossa essência, ele é também um ser por si, um ser fora de nós, quer dizer, não só fé, sentimento, pensamento, mas também um ser real, diverso do crer, do sentir e do pensar, mas um ser também sensorial. A existência de Deus então é um intermediário entre existência sensorial e existência pensada. Feuerbach procura explicar que somente a fantasia soluciona a contradição entre uma exist~encia ao mesmo tempo sensorial e não-sensorial. Na imaginação tem a existência efeitos sensoriais. Quando a existência de Deus é uma verdade viva, uma questão da imaginação então torna-se naturalmente possível a crença em todas as manifestações de Deus. A crença na existência de Deus é a crença numa existência especial, diversa da existência do homem e da natureza. Sendo uma existência especial só pode ser documentada de maneira especial. Portanto, esta crença só é verdadeiramente viva a partir da crença nos efeitos especiais, nas manifestações diretas de deus, nos milagres. Só então, quando a crença em deus se identifica com a crença no mundo, quando a crença em deus não é mais uma crença especial, quando a essência geral do mundo inclui o homem total, só então desaparece naturalmente também a crença em efeitos especiais e manifestações de Deus.

A Contradição na Revelação de Deus

Mas, qual seria o testemunho documental da existência de Deus? É no 22° capítulo, intitulado “A contradição na revelação de Deus”, que Feuerbach procura demonstrar o conceito da existência de Deus associado ao conceito da revelação. A auto-confirmação da existência, o testemunho documental de que Deus existe é a revelação, a palavra de Deus. Deus fala para o homem dando o tom de si mesmo tocando a sua afetividade o que dá a este a certeza da sua existência através da palavra que é revelada e que se torna o evangelho da vida. É portanto através da palavra que Deus se revela, se externaliza, se demonstra ao homem, materializando a certeza e a crença que provam sua existência, pois um Deus que só existe sem se revelar, que só existe através do próprio homem é apenas um Deus abstrato, subjetivo. Somente um Deus que possibilita o conhecimento do homem através de si mesmo é um Deus realmente existente, objetivo. A crença na revelação é a certeza imediata da afetividade religiosa, de que existe o que ela crê, deseja e conhece. Feuerbach considera que a crença na revelação desvenda da maneira mais clara a ilusão característica da consciência religiosa, pois na crença na revelação o homem se nega, vai para fora e para cima de si, opondo a revelação ao saber e à opinião humana. Nela se mostra um saber oculto, o conjunto de todos os mistérios sobrenaturais, que acabam por silenciar a razão. Deus não é livre na razão, ele só pode revelar ao homem o que convém ao homem, o que é adequado a sua natureza como ela é. O que Deus pensa e revela para o homem surge da reflexão sobre a natureza humana. O que chega de Deus no homem vem ao homem somente a partir do homem em deus, isto é chega ao homem consciente a partir da essência do homem, chega do gênero para o indivíduo. Sendo assim qualquer distinção entre a revelação divina e a natureza humana é ilusória, o que serve para confirmar que na revelação o homem também sai de si para voltar novamente e que o mistério da teologia é apenas a atropologia, já que qualquer revelação de Deus é apenas uma revelação da natureza do próprio homem. Na revelação torna-se objeto para o homem a sua natureza oculta. Ele é determinado pela sua essência, mas como se fosse por uma outra essência, efetuando através da ajuda de Deus o que não consegue atingir por si mesmo. O homem projeta espontaneamente através da imaginação a sua essência interior. Deus é esta essência da natureza humana contemplada, personificada, que atua sobre ele através do poder irresistível da imaginação como lei do seu pensar e agir. A crença na revelação atua sobre o homem inculto, corrompe o senso moral, a estética da virtude e mata o mais divino sentimento do homem – o sentimento de verdade. O que está na revelação é verdadeiro, ainda que contradiga diretamente a razão. Mas, quanto mais o homem se distancia da revelação quanto ao tempo, quanto mais a razão amadurece para a autonomia, tanto mais gritante se mostra necessariamente também a contradição entre a razão e a crença na revelação.

A Contradição na Essência de Deus em Geral"

No 23° Capítulo, intitulado “A contradição na essência de Deus em geral”, Feuerbach inicia colocando que o ponto central da sofística cristã é o conceito de Deus, pois para a teologia Deus é a essência humana e no entanto ele deve ser um outro ser sobre-humano. Ao mesmo tempo que Deus é um ser genérico, puro, mera idéia do ser, ele deve ser também um ser pessoal, individual; da mesma forma que Deus existe, que sua existência é certa e real, ele deve ter uma existência espiritual, não-perceptível como especial. No que Deus deve ser é sempre negado no que se afirma que ele é. Sendo assim, o conceito fundamental é uma contradição que só é ocultada por sofismas.O humanitarismo torna-se o predicado essencial de Deus, mas, ao mesmo tempo significa que Deus é um ser que não existe para si, fora do homem, acima do homem, como um outro ser, é um fantasma, o que o torna portanto extra-humano, um predicado essencial da divindade. Um Deus que não é como nós, que não possui consciência, inteligência, não é um Deus. Mas ao mesmo tempo um deus que não é essencialmente diverso de nós também não é um Deus. Um artifício e pretexto especialmente característico da sofística cristã, é a insondabilidade e incompreensibilidade da essência divina. A infinitude de Deus na religião é uma infinitude quantitativa. Deus é e tem tudo que o homem tem, mas em proporção infinitamente maior. A essência de Deus é a essência da fantasia objetivada. Deus é um ser sensorial, mas abstraído das limitações da sensorialidade, ou seja, o ser sensorial ilimitado. Deus é a existência eterna, é onipotente, onipresente, onisciente. Quanto mais limitado é o horizonte do homem, quanto menos ele sabe sobre história, natureza, filosofia, mais intimamente depende da sua religião. Por isso também o religioso não tem em si nenhuma necessidade da cultura. Quem tem tudo em deus, quem já goza da felicidade celestial na fantasia não sente a carência da cultura. A diferença originariamente apenas quantitativa entre a essência divina e a humana é agora transformada pela reflexão numa diferença qualitativa e assim o que era inicialmente apenas uma efeição, uma expressão imediata da admiração, do entusiasmo, uma impressão da fantasia sobre o espírito, é agora fixado como uma qualidade objetivada, como uma incompreensibilidade real. A expressão predileta da reflexão neste sentido é que sem dúvida compreendemos de deus o que, mas nunca o como. Feuerbach complementa este raciocínio reconhecendo que o predicado do criador cabe essencialmente a Deus, que ele criou o mundo não de uma matéria existente, mas do nada, através apenas da sua onipotência. Mas, como isto é possível é algo que ultrapassa a inteligência de qualquer um. Conclui então que o conceito genérico é claro, mas o conceito especial é obscuro, incerto. O conceito da atividade, do fazer, do criar é em e por si um conceito divino, por isso mesmo é irrefletidamente aplicado em Deus. Porém, sob esta incompreensibilidade está ao mesmo tempo a intenção de distanciar a atividade divina da humana, de impedir a sua semelhança, uniformidade ou mesmo a sua unidade essencial com a humana para transformá-la numa atividade essencialmente diversa.

A Contradição na Teologia Expeculativa

No capítulo 24°, intitulado “A contradição na teologia especulativa”, a argumentação de Feuerbach objetiva expor tal contradição, reafirmando que a personalidade de Deus é o meio através do qual o homem transforma as determinações e concepções da sua própria essência em determinações e concepções de uma outra essência fora dele. A personalidade de Deus nada mais é que a personalidade do homem exteriorizada, objetivada. Para se tornar Deus autônomo e livre de tudo que é humano faz-se dele de preferência uma pessoa formal, real, ao se encerrar nele o seu pensar, mas ao se excluir dele o ser-pensado, que cai fora como um outro ser. A religião transforma também o ser pensado de Deus no pensar-se-a-si-mesmo de Deus. Deus cria para se revelar, já que a criação é a revelação de Deus. Mas para a natureza não existe Deus, mas só para o homem, pelo que também a natureza existe meramente por causa do homem, mas o homem por causa de Deus. No homem Deus se glorifica, pois o homem é o orgulho de Deus. Deus se conhece a si mesmo sem o homem, mas enquanto não existe um outro Eu é ele apenas uma pessoa possível, concebida. Somente quando é posta uma distinção de Deus, o não-divino, só então torna-se Deus consciente de si mesmo. Só quando ele sabe o que não é Deus, sabe ele o que significa ser Deus, conhece ele a felicidade da sua divindade. O homem não é nada sem Deus, mas também Deus não é nada sem o homem, pois só no homem torna-se Deus objeto enquanto Deus, torna-se ele Deus. Só as diversas qualidades do homem estabelecem a diversidade, a base da realidade em Deus. A desgraça do homem é o triunfo da misericórdia divina, a vergonha dos pecados é o prazer da sacralidade divina. O homem é o Deus revelado, pois só no homem se realiza, atua a essência divina como tal. O homem conhece Deus porque Deus se encontra e se conhece nele, se sente como Deus. Mas, somente no homem transformam-se as qualidades divinas em sentimentos, isto é, o homem é o auto-sentimento de Deus – o Deus sentido é o Deus real. Assim como o sentimento da miséria humana é humano, igualmente humano é o sentimento da misericórdia divina. Só o sentimento da dificuldade da finitude é o sentimento da felicidade da infinitude. Onde não está um também não está o outro. Ambos são inseparáveis. Deus é ele mesmo somente no mesmo humano, só na capacidade humana de discernimento, só na duplicidade interior da essência humana. Sendo assim, Feuerbach conclui que o saber que o homem tem de Deus é o saber que tem de si, da sua própria essência. Somente a unidade de essência e consciência é verdade. Onde estiver a consciência de Deus, aí também estará a essência de Deus, portanto, no homem. Toda identidade que não é uma unidade consigo mesma, tem por base uma cisão, uma separação, então é uma contradição consigo mesma e com a inteligência, uma superficialidade, uma fantasia, um contra-senso, uma confusão que se mostra tanto mais profunda quanto mais contraditória e falsa for.

A Contradição da Trindade

No capítulo 25°, intitulado “A Contradição da Trindade”, Feuerbach explicita que o objetivo da teologia não é somente a essência humana ou divina em geral como uma essência pessoal, ela concebe também as características ou distinções fundamentais desta essência novamente como pessoas, ao se referir a Trindade composta pelo Pai, Filho e Espírito Santo. Feuerbach expõe que a Trindade é a contradição entre politeísmo e monoteísmo, fantasia e razão, imaginação e realidade. A fantasia é a Trindade, a razão a unidade das pessoas. Para a razão são os seres diversificados apenas diversidades, para a razão são as diversidades os próprios diversificados que anulam a unidade da essência divina. Para a razão as pessoas divinas são fantasmas, para a imaginação são seres. A Trindade dá ao homem a pretensão de se pensar o contrário do que se imagina e de se imaginar o contrário do que se pensa, pois a Trindade são três pessoas, que não são essencialmente diversas, composta de três pessoas em Deus – Deus-Pai, Deus-Filho e Deus-Espírito Santo – não tendo uma existência separada. Mas, as três pessoas cristãs são apenas pessoas imaginadas, representadas, dissimuladas, certamente diversas das pessoas reais exatamente por serem somente personalidades imaginadas, aparentes, que querem e devem ser ao mesmo tempo pessoas reais. Deus está igualmente nas Três, é o mesmo. Um é o Pai, outro é o filho e o outro o Espírito Santo, mas não ‘outro’, e sim o que o Pai é, é também o Filho e o Espírito Santo, ou seja, são pessoas diversas, mas sem nenhuma diversidade da essência. É neste sentido que Feuerbach diz que as três pessoas da Trindade são fantasmas aos olhos da razão, pois as condições ou determinações através das quais a sua personalidade deveria se afirmar são suspensas pela lei do monoteísmo. A unidade nega a personalidade, a autonomia das pessoas sucumbe sob a autonomia da unidade, pois elas são meras relações. Mas ao mesmo tempo não devem essas relações ser apenas relações de dependências, mas pessoas reais, essências, substâncias. É desta forma, ao desvendar o mistério da Trindade, que Feuerbach demonstra a verdade do politeísmo e a negação na verdade do monoteísmo, concluindo que representar uma verdade diversa da essência humana seria insistir na ilusão, na fantasia, na contradição e no sofisma.

A Contradição nos Sacramentos

O 26º Capítulo, intitulado “A Contradição nos Sacramentos”, Feuerbach inicia expondo que fé e amor constituem os momentos essenciais subjetivos da religião, enquanto que os sacramentos do batismo e da ceia se apresentam como suas essências objetivas. Só existem dois sacramentos como dois momentos essenciais subjetivos da religião - o sacramento da fé é o batismo, o sacramento do amor é a ceia. A unidade dos sacramentos com a essência peculiar da religião tem como base de manifestação coisas ou elementos naturais aos quais é concedido um significado e um efeito contraditório à sua natureza, como o sentido dado à água, no caso do batismo. Feuerbach argumenta que tal qual a religião que aliena e desvia o homem da sua própria essência, a água do batismo desempenha o mesmo papel alienante, ao considerar a água totalmente diversa da comum, por não ter uma força e um significado físico, mas sim hiperfísico, servindo para purificar o homem da mácula do pecado original, expulsando o demônio inato, de maneira conciliatória com Deus. Neste sentido a água do batismo é uma água natural somente de aparência porque na realidade ela é uma água sobrenatural, ou melhor, tem efeitos sobrenaturais, o que Feuerbach por sua vez atribui apenas à imaginação. No entanto, deve ser ao mesmo tempo o elemento do batismo a água natural, pois o batismo não teria nenhuma validade e efeito se não fosse realizado com a água. A qualidade natural tem, portanto, valor e significado também por si mesma, porque só com a água, não com qualquer outro elemento, o efeito sobrenatural do batismo se associa de modo sobrenatural. A água é o líquido visível mais puro e mais claro que existe, e através desta sua qualidade natural é fácil associa-la à imagem da essência imaculada do espírito divino. Neste sentido é que a água passa a ser consagrada, tendo sido por sua qualidade natural escolhida como instrumento do Espírito Santo. Então é atribuído ao batismo um conceito natural belo, profundo. No entanto este belo sentido se perde logo após, ao ter a água um efeito que transcende a sua essência, um efeito que ela só tem através do poder sobrenatural do Espírito Santo, não por si mesma. A qualidade natural torna-se novamente indiferente. Quem transforma vinho em água pode associar arbitrariamente com qualquer elemento os efeitos da água do batismo. É por isso que o batismo não pode ser compreendido sem o conceito do milagre. O batismo é ele próprio um milagre e o milagre deve provar que o milagroso é realmente aquele que como tal se apresenta. Somente a fé baseada no milagre é uma fé provada, fundamentada, objetiva. A fé que o milagre pressupõe é somente a fé em um Messias, em um Cristo em geral, mas a fé de que este homem aqui é o Cristo, esta fé só o milagre pode levar a efeito. Por isso mesmo que muitas são as pessoas que só se tornam crentes através do milagre e o milagre acaba tornando-se a causa da sua fé, porque a fé é o poder da imaginação que transforma o real no irreal, o irreal no real, a contradição direta com a verdade dos sentidos com a verdade da razão. A fé nega o que a razão afirma e afirma o que ela nega. O mistério da ceia é justamente o mistério da fé, daí ser o prazer da fé, o momento mais elevado, o mais extasiado, o mais inebriado de satisfação da afetividade crente. A destruição da verdade não-afetiva, da verdade da realidade, do mundo e razão objetivas, atinge na ceia o seu mais alto cume porque aqui a fé aniquila um objeto imediatamente presente, evidente, indubitável ao afirmar, por exemplo, que o pão que a razão e os sentidos testemunham, é só uma aparência, pois na verdade o pão é carne. Concluindo seu raciocínio neste capítulo, Feuerbach procura demonstrar que apesar da ceia, o sacramento em geral nada ser sem a intenção, sem a fé, apresenta a religião, no entanto, o sacramento ao mesmo tempo como algo real por si mesmo, exterior, diverso da essência humana, de forma que na consciência religiosa a questão verdadeira, a fé, a intenção se torna somente um supérfluo, uma condição, mas a questão suposta, imaginada, se torna o principal. As conseqüências e efeitos desta subordinação do humano sob o suposto divino, do subjetivo sob o suposto objetivo, da verdade sob a imaginação, da moralidade sob a religião, são superstição e imoralidade. Superstição porque a uma coisa é atribuído um efeito que não está na natureza da mesma, porque uma coisa não deve ser o que ela é na verdade, porque uma mera imaginação é tida pela realidade. Imoralidade porque necessariamente, no espírito, a sacralidade do ato como tal se separa da moralidade, o gozo do sacramento, também independentemente da intenção, se torna um ato sagrado e sacralizante. Quer dizer, aquilo através do qual em geral a religião se coloca em contradição com a razão, através disto mesmo ela se coloca também sempre em contradição com o sentido moral.

Contradição entre Fé e Amor

Feuerbach inicia o 27º Capítulo, intitulado “A contradição entre fé e amor” retomando um pouco a conclusão do capítulo anterior sobre os sacramentos expondo que estes simbolizam a contradição entre idealismo e materialismo, subjetivismo e objetivismo, mas que acima de tudo, nada são sem a fé e o amor. Por isso mesmo, a contradição dos sacramentos levam a contradição entre esses dois princípios. O mistério secreto da religião é a unidade da essência divina com a humana, pois Deus é a essência humana, conhecida como uma outra essência. É através do amor que é revelada a essência oculta da religião, e é na fé que encontramos a sua forma consciente. É justamente por isso, segundo Feuerbach que o amor identifica o homem com Deus e a fé separa Deus do homem. A fé isola Deus, quando o transforma num outro ser comum, cujo amor é idêntico ao amor do homem. A fé separa o homem no interior, consigo mesmo, logo, também no exterior, mas é o amor que cura as chagas que a fé abre no coração do homem. A fé transforma a fé em Deus numa lei, o amor é liberdade, ele não condena nem mesmo o ateu porque ele mesmo é ateu, mesmo que nem sempre negue teórica, mas praticamente a existência de um Deus especial, oposto ao homem. A fé separa o que é verdadeiro do falso e somente para si atribui a verdade, que é uma verdade determinada e especial. Neste sentido é que a fé é por natureza exclusiva, onde uma só é a verdade, um só é Deus. Feuerbach continua, procurando demonstrar que a fé é algo especial por se basear numa revelação especial de Deus, não podendo ninguém se apropriar dela por via comum, pela via que está aberta a todos os homens indistintamente, já que o que está aberto a todos é algo comum e que sendo assim, não representa nenhum objeto especial de fé. Deus é por si mesmo em pessoa uma questão de graça especial, conteúdo de uma fé especial. O Deus especial é o Deus como é objeto em especial para os cristãos, o Deus pessoal que somente é Deus é para os pagãos, os descrentes, em geral desconhecido, não é para eles. Ele certamente deve sê-lo também para os pagãos, mas de modo mediato, só se deixarem de ser pagãos e tornarem-se cristãos. É por isso que, sendo presa em si mesma, a fé limita o homem, lhe tomando a liberdade e a capacidade de valorizar devidamente o que lhe é diverso. A fé dá ao homem um sentimento especial de honra e de si mesmo. O crente se acha excelente perante os outros homens, elevado acima do homem natural, possuído de direitos especiais. Deus é o que faz essa diferença, é a diferença personificada e o privilégio do crente perante o descrente. A consciência do seu privilégio é o sentimento que o crente de si mesmo nesta outra personalidade. A fé aparece inicialmente só como uma separação ingênua entre crentes e descrentes. Crer significa o mesmo que ser bom, não crer o mesmo que ser mau. A fé limitada e presa, empurra tudo para a intenção. O descrente é para ela descrente por teimosia, por maldade, um inimigo de cristo. Por isso a fé assimila para si somente os crentes, mas os descrentes ela repudia. Ela é boa para com os crentes, mas má para com os descrentes. Na fé existe um mau princípio. O cristianismo não ordena de fato nenhuma perseguição a hereges, nem conversão à força de armas. Mas enquanto a fé condena, produz ela necessariamente disposições inamistosas, disposições das quais surge a perseguição a hereges. Amar ao homem que não ama a Cristo é um pecado contra Cristo, significa amar o inimigo de Cristo. Ser cristão significa ser amado por Deus, não ser cristão ser odiado por Deus, ser um objeto da ira divina. O cristão só pode então amar o cristão, o outro somente como cristão potencial, ele só pode amar o que a fé consagra, abençoa. É neste sentido que a fé é o batismo do amor. A fé é portanto, essencialmente partidária. Quem não é a favor de Cristo é contra Cristo. A fé só conhece inimigos ou amigos, nenhuma imparcialidade, ela só se preocupa consigo mesma. A fé é essencialmente intolerante por estar sempre ligada a ilusão de que a sua causa é a causa de deus, a sua honra é a honra de Deus. O Deus da fé é em si somente a essência objetiva da fé, a fé que é objeto para si mesma. Por isso se identifica também no espírito e na consciência religiosa a causa da fé com a causa de Deus. O próprio Deus participa. O interesse do crente é o mais íntimo interesse do próprio Deus, o que ofende a fé ofende a Deus, o que nega a fé, nega também ao próprio Deus. A fé é o oposto do amor. O amor só é idêntico à razão, mas não a fé, pois como a razão, é o amor de natureza mais livre, mais universal, mas a fé de natureza mais estreita, mais limitada. Somente onde existe a razão impera o amor geral, a razão não é nada mais que o amor universal. Foi a fé que descobriu o inferno, não o amor, nem a razão. Para o amor o inferno é um horror, para a razão um absurdo. A fé amaldiçoa todas as ações, todas as intenções que contradizem o amor, a humanidade, a razão, correspondem à fé. Todas as crueldades da história da razão cristã, das quais os nossos crentes dizem que elas não vieram do cristianismo, são oriundas do cristianismo, porque são oriundas da fé. Os atos de fé cruéis da cristandade correspondem, portanto, à essência da fé. A fé se transforma necessariamente em ódio, o ódio em perseguição, quando o poder da fé não encontra nenhum obstáculo, não se choca com um poder estranho à fé, o poder do amor, do humanitarismo, do sentimento de justiça. A fé em si mesma se eleva necessariamente acima das leis da moral natural. A fé é para si o mais elevado, porque o seu objeto é uma personalidade divina. Por isso ela faz depender de si a eterna felicidade, não do cumprimento de deveres humanos comuns. Como interiormente a moral é subordinada à fé, então ela pode, ser-lhe subordinada, sacrificada também exteriormente, na prática. É necessário que haja ações nas quais a fé se manifesta em distinção, ou em contradição com a moral, ações que são moralmente péssimas, mas louváveis pela fé, pois só têm em vista o bem da fé. Toda salvação está na fé, tudo portanto, na salvação da fé. Se a fé for ameaçada então é a felicidade eterna a glória de Deus ameaçada. Portanto, a fé dá seu privilégio a tudo, bastando que tenha por objetivo a sua promoção, pois ela é, rigorosamente, o único bem ao homem, como o próprio Deus é o único bom ser, então o primeiro e mais elevado mandamento é a fé. A fé sem amor ou indiferente ao amor contradiz a razão, o senso de justiça natural do homem, o sentimento moral, que como tal se impõe o amor imediatamente como lei e verdade. A fé torna-se, portanto, em contradição com a sua essência em si limitada pela moral, uma fé que não pratica nenhum bem, que não se manifesta pelo amor, não é verdadeira, viva. Mas essa limitação não se origina da fé mesma. É o poder do amor independente da fé que lhe dita leis, pois aqui a qualidade moral torna-se o sinal característico da legitimidade da fé, a verdade da fé é feita dependente da vontade da moral, uma relação que contradiz a fé. É certo que a fé torna o homem feliz, mas ela não lhe inspira nenhuma intenção realmente moral. É somente a moral que chama o crente á consciência, mas não a fé. A sua fé não é nada se não o torna bom. Mas, não é o próprio amor, não é o homem como objeto do amor, a base de toda a moral, o impulso das suas boas ações. Ele pratica o bem não pelo bem, não pelo homem, mas por Deus, por gratidão a Deus, que fez tudo por ele e pelo qual também ele por sua vez deve fazer tudo que lhe for possível. Neste sentido o conceito da virtude é o conceito do sacrifício recompensador. Deus se sacrificou pelo homem, por isso deve agora o homem se sacrificar a Deus. Quanto maior o sacrifício, tanto melhor a ação. Apesar dos atos contraditórios ao amor da história da religião cristã corresponderem ao cristianismo, e por isso mesmo os adversários do cristianismo terem razão quando culpam o mesmo das atrocidades dogmáticas dos cristãos, apesar disso eles contradizem também o cristianismo, porque o cristianismo, porque o cristianismo não é somente uma religião de fé, mas também do amor, que nos obriga não só a fé, mas também ao amor. O cristianismo sanciona ao mesmo tempo os atos que se originam do amor e os atos que se originam da fé sem amor. A Bíblia condena através da fé, perdoa através do amor. Mas ela só conhece o amor fundado na fé.

Conclusão

No 28º Capítulo, intitulado “Conclusão”, Feuerbach finaliza demonstrando que o conteúdo e objetivo da religião é totalmente humano, nos fazendo ver que o mistério da teologia é a antropologia, que a essência divina é a humana. Pelo fato da religião não reconhecer a humanidade do seu conteúdo, a mudança necessária da história passa justamente por uma tomada de consciência de que Deus nada mais é que a consciência do gênero, e que o homem pode e deve se elevar acima das limitações da sua individualidade ou personalidade, mas não acima das leis, das qualidades essenciais do seu gênero. A relação de Feuerbach com a religião não é somente negativa, mas sempre crítica, procurando separar o que nela há de verdadeiro daquilo que é falso, apoiando-se no princípio de que a verdadeira religião manifesta o espírito humano numa forma inferior de representação, cabendo à filosofia chegar ao mesmo com a forma conceitual superior de representação. A religião é a primeira autoconsciência do homem. Sagradas são as religiões precisamente por serem a transmissão da primeira consciência do homem. Feuerbach antropologiza todas as representações religiosas, o que não significa uma dessacralização do universo, mas algo que resulta numa sacralização do próprio homem. Por ser conhecimento que o homem tem de si mesmo, a religião não deve ser simplesmente abandonada, mas submetida à crítica, para que o momento de conhecimento seja salvo, abandonando-se apenas a falsa representação de que se trataria de um outro do homem. O resultado desta crítica é ao mesmo tempo o autoconhecimento do homem e a sua divinização, passando os predicados de Deus a ser, na consciência crítico-filosófica, predicados do homem. As relações em geral do homem com o homem em todas as suas formas, as relações morais são relações verdadeiramente religiosas. A vida é em geral, em suas relações essenciais, substanciais, efetivamente de natureza divina. A passagem de Feuerbach da teologia para a antropologia não abandona, portanto, o momento do sagrado e nem chega a uma concepção de homem inteiramente secularizada ou dessacralizada. Não se trata também de colocar simplesmente o homem no lugar antes ocupado por deus, mas antes de levar às últimas conseqüências o reconhecimento moderno de que as representações religiosas têm sua origem no homem. Se o homem é a origem do divino, então só pode ele mesmo ser divino, e isto não por participar da natureza de um deus estranho a ele, mas por ser ele mesmo seu próprio deus. “Homo homini Deus est – este é o supremo princípio prático – este é o ponto de transição da história universal”. A nova inflexão antropológica da história estaria, assim, sob o signo de uma nova máxima – Que o homem seja o deus do homem, que o humano seja sagrado para o homem, sagrado por si mesmo, sem a referência a um Deus estranho - Esta seria a máxima da nova era feuerbachiana. A conseqüência desta sacralização do homem é a transformação das relações comuns entre os homens, relações normalmente tidas por profanas, e sem peso religioso, em relações carregadas de sacralidade: “Sagrada é e seja para ti a amizade, sagrada a propriedade, sagrado o casamento, sagrado o bem-estar de cada homem, mas sagrado em e por si mesmo.” A amizade, a prosperidade, etc. estas relações substanciais, são sagradas não por receberem uma benção divina, por participarem de algum modo da natureza de um deus distinto do homem, mas por realizarem por si mesmos a natureza divina do homem.

CAPÍTULO 3 - A PLENITUDE DE DEUS E A QUESTÃO DA INVIABILIDADE DA FINITUDE DO HOMEM.

Inicialmente o que se faz necessário para adentrarmos na questão objeto desta monografia é buscar no contexto abordado um aprofundamento na compreensão do sentido de algumas palavras-chaves básicas como: finitude e infinitude, teologia e antropologia, essência e existência, para compreendermos melhor a relação delas com o pensamento de Feuerbach. É justamente isso que procuraremos desenvolver neste capítulo.

3.1. INFINITUDE DE DEUS x FINITUDE HUMANA

Quando imaginamos uma coisa como finita pensamos imediatamente em algo que tenha fim, que seja transitório, contingente e que por isso mesmo seja limitado no seu tempo e espaço. A idéia de infinito, ao contrário, nos reporta a uma coisa maior, a algo tão grande que a nossa mente tem até dificuldade de abarcar, tamanha a sua extensão. Infinito portanto, refere-se ao inumerável, incalculável, àquilo considerado de intensidade extrema, que tende constantemente a aumentar ou a se acrescer algo novo. O homem de alguma maneira sempre buscou o entendimento sobre essa questão. Os seres humanos e todas as outras criaturas particulares são objetos finitos da natureza. O homem não pode conhecer o infinito, pois todo conhecimento é originado pela relação dos seus sentidos com as coisas que a eles se apresentam. Todo corpo é finito, por definição, e ocupa um lugar no espaço, por isso podemos percebê-lo. O infinito, por sua vez, é ilimitado, é desconhecido.

A palavra infinito é originária do latim Infinitum, e apresenta três significações para ela. A primeira se refere ao conceito matemático de Infinito, que trata da disposição ou qualidade de uma grandeza[1]O segundo conceito diz respeito a natureza teológica de infinito, enquanto que o terceiro vai abordar o sentido filosófico desta palavra. Aqui nos limitaremos apenas aos dois últimos conceitos por compreendermos que está mais no centro da questão objeto desta monografia.

O conceito de Infinito segundo a natureza teológica considera que teologicamente o infinito é intensivo, ou seja, em todos os sentidos equivale a dizer perfeito, no sentido de maximamente completo. Também se diz infinito no plano da forma, ou infinito no plano da essência. Então infinito é o que não se limita por qualquer determinação qualificante. Este é o infinito que se atribui a Deus, portanto no sentido de maximamente ser. O infinito em Deus é real (ou atual) e não potencial (ou imaginativo). O infinito potencial o imaginamos acontece no espaço (ou na matemática), ou em qualquer outro elemento ao qual imaginamos poder acrescer algo, ainda que de fato isto não aconteça. Como decorre da natureza de Deus o atributo da infinitude? O argumento que prova a existência de Deus pelos graus de perfeição conduz diretamente ao máximo de perfeição da forma, e portanto ao infinito intensivo, ou seja ao ser infinitamente perfeito.

O argumento, que está apoiado na causa formal, é portanto aquele que mais adequadamente conduz a Deus. Este argumento não somente reclama sua existência, como ainda o revela pela sua natureza essencial. Mas a compreensão interna do infinito como atributo da natureza de Deus se procede a partir da noção de Deus como ser subsistente. Em primeiro lugar Deus é a existência pura, sem determinação modalizante, ou seja, sem qualquer outro elemento. A decorrência desta liberação da existência é o infinito. Uma coisa leva à outra e não pode ser concebida sem a outra. Há uma relação de causa formal e de efeito formal entre a existência e sua infinitude. Deus não tem qualquer determinação limitante, nem de quantidade, nem de outra qualquer categoria; a consequência formal é a sua infinitude intensiva.Já a conceituação de Infinito Filosófico que é a não completude, diz que a realidade é limitada e o que é impossível de ser completado é infinito. Anaximandro que viveu em Mileto a cerca de 585 a.C. achava que nosso mundo era apenas um dos muitos mundos que surgem de alguma coisa que se dissolve nesta alguma coisa a que ele chamava de infinito[2].

Kant considerava que nas grandes questões filosóficas a razão operava fora dos limites daquilo que nós, seres humanos, podemos compreender. Por outro lado, uma característica intrínseca à nossa natureza, à nossa razão, seria justamente um impulso básico no sentido de colocar essas perguntas. Só que quando perguntamos, se o Universo é finito ou infinito, na verdade queremos saber algo sobre um todo do qual nós mesmos somos apenas uma (ínfima) parte. Assim, nunca poderemos conhecer inteiramente este todo[3].

Henrik Steffens, pesquisador natural norueguês, caracterizando o movimento romântico citou as seguintes palavras: “Cansados da eterna luta por abrir um caminho pela matéria bruta, escolhemos outro caminho e nos lançamos apressados, aos braços do infinito. Mergulhamos em nós mesmos e criamos um novo mundo” [4]

Portanto, não temos uma idéia positiva da infinitude, mas apenas uma idéia negativa, que se constitui na negação da nossa própria finitude, demonstrando os nossos limites e a nossa incapacidade de conceber a infinitude. Portanto, nós não temos a idéia do infinito do mesmo modo como temos a idéia do finito, pois ela é uma idéia que se constitui negativamente, ou seja, o infinito é inconcebível: podemos dar um significado a essa palavra por meio da negação, mas não podemos concebê-la do mesmo modo que concebemos as coisas que realmente conhecemos. Isso ocorre porque não somos capazes de conceber algo que não tenha sua origem na sensação.

A conseqüência da impossibilidade da representação e do conhecimento do infinito é a impossibilidade da representação e do conhecimento de Deus. Podemos inferir a existência de Deus, mas não temos nenhum conhecimento da sua essência. Assim como o infinito, ele é inconcebível, pois, do mesmo modo que não temos uma idéia positiva do infinito, também não a temos da onipotência e da independência. Todos os atributos de Deus são atributos negativos que expressam uma grandeza e um poder acima de nossa compreensão. Hobbes dirá que o nome de Deus é usado para provocar veneração e admiração, em virtude de seus atributos ilimitados. Porém, a idéia de Deus nada significa no que tange ao conhecimento, é apenas um nome conferido a um ser dotado de atributos inconcebíveis: “Portanto o nome de Deus é usado, não para nos fazer concebê-lo (pois ele é incompreensível e sua grandeza e poder são inconcebíveis), mas para que o possamos venerar”[5]Em Feuerbach vamos encontrar a primeira crítica que a filosofia faz à religião, no sentido de desconstruir a teologia para formar uma antropologia, demonstrando que idéia de um Deus pleno através da teologia revela a existência de um ser perfeito, transcendente, onipotente, universal, infinito e absoluto que o homem não é, nem pode ser. Através da antropologia, conhecimento sistemático a respeito do homem, procurou demonstrar que a finitude das capacidades humanas reside exatamente no real limitado, que a plenitude de Deus gera um ser humano pecador e sem sentido. Por isso, desconstruir a teologia em Feuerbach, significa demonstrar as falhas dessa idéia quando relacionada ao homem e o equívoco desta noção universalista, procurando provar através da desmitificação da teoria religiosa que a absolutidade de Deus só esvaece o homem. Pela dificuldade de reconhecer em si mesmo a existência de uma essência positiva e infinita, esse homem acaba por transformar-se num ser fraco, pecador, sem sentido e alienado diante de algo maior e mais poderoso que ele, um ser em quem não admite a possibilidade de equiparar-se.

Segundo Feuerbach há uma unidade entre o finito e o infinito; Todavia, essa unidade não se realiza em Deus ou na Idéia Absoluta, mas sim no homem, em um homem que não pode ser reduzido a puro pensamento, mas que deve ser considerado em sua totalidade, em sua naturalidade e em sua sociabilidade. O homem desloca o seu ser para fora de si antes de encontrá-lo em si: e esse encontro, essa aberta confissão ou admissão de que a consciência de Deus nada mais é do que a consciência da espécie, acaba por consignar que de fato, todas as qualificações do ser divino são qualificações do ser humano - o ser divino é unicamente o ser do homem libertado dos limites do indivíduo, isto é, dos limites da corporeidade e da realidade, mas objetivado, ou seja, contemplado e adorado como outro ser, diferente dele. Religião é o comportamento do homem perante seu próprio infinito. Nisso está a verdade. Por outro lado, a falsidade da religião ideológica ou teológica, está em o homem tornar independente de si mesmo o seu próprio ser infinito, separando-o e opondo-o como diferente de si, produzindo a bipolaridade Deus-homem, alienando, assim, o último, ou seja, empobrecendo-o. [6][1] Os pensadores da Antiguidade anteriores a Pitágoras (século V a.C.) Já eram atormentados por esse tema. Mas foi só no final do século XIX na Alemanha com Georg Cantor (1845-1918) que a idéia de infinito foi realmente consolidada na matemática. Sua teoria era revolucionária e, por isso mesmo, acabou gerando embates e animosidades entre os matemáticos da época. Pessoalmente, Cantor acreditava que existiam vários níveis de infinito. O mais alto deles, o Absoluto e intangível, era o próprio Deus. Seu caráter místico e sua mente conturbada devem tê-lo levado a se debruçar sobre tal tema tão profundo, revolucionário e ousado na matemática. Kronecker aproveitava o lado esotérico de Cantor para acusar suas teorias matemáticas de misticismo ficcional. Segundo o ex-mestre, cientistas não deveriam dar crédito ao seu ex-aluno, e seus trabalhos ‘subversivos’ deveriam ser rejeitados pelas revistas científicas renomadas. Como resultado, Cantor sempre trabalhou sozinho e fora do centro da comunidade matemática. Suas frustrações e as perseguições, somadas ao trabalho estafante e solitário – e ao caráter explosivo e irritadiço do matemático -, acabaram por minar a sua saúde mental. Ele foi internado várias vezes para se recuperar das depressões, mas, entre uma crise e outra, prosseguia no trabalho.
[2] WIKIPÉDIA, A Enciclopédia Livre – Pré-Socraticoshttp://pt.wikipedia.org/wiki/Pr%C3%A9-socr%C3%A1ticos
[3] WIKIPÉDIA, A Enciclopédia Livre – Immanuel Kanthttp://pt.wikipedia.org/wiki/Kant
[4] GAARDER, Jostein, O Mundo de Sofia, Cap 26, Romantismo
[5] ZERBINA, Márcia, Artigo: O Infinito e Deus em Hobbes – UFGO - Philósophos 8http://www.iphi.com.br/pdfs/O%20infinito%20e%20deus%20em%20Hobbes.pdf
[6] FEUERBACH, Ludwig, A Essência do Cristianismo, p. 71 e 72

3.2. TEOLOGIA x ANTROPOLOGIA

A religião ocupa um lugar central no pensamento de Feuerbach por considerar ser esta a primeira tomada de consciência do homem de sua própria natureza. Feuerbach pretendeu substituir a metafísica e a teologia pela antropologia criticando toda filosofia que defendesse o absoluto e ao mesmo tempo propondo uma filosofia que partisse do homem sensível, cuja natureza subsistisse em si mesmo e que se relacionasse com o outro.

Mas, se a religião é autoconsciência do homem como consciência de Deus, isto não quer dizer ainda que o homem já tenha consciência de que é dele mesmo que se trata na representação do divino. Pelo contrário, a consciência religiosa caracteriza-se precisamente por desconhecer este detalhe, encontrando-se inteiramente imersa na consciência de um outro, razão pela qual o pensamento filosófico levará à sua superação: “A religião é o primeiro e ademais indireto autoconhecimento do homem. A religião antecede, por isto, em toda parte, a filosofia, assim como na história da humanidade também na história de cada um.”[1] Ela é a primeira tomada de consciência do homem de sua própria natureza, sendo indireta por não se dar como consciência de si mesmo, mas como consciência de Deus, portanto de um outro, exterior ao homem. Diretamente o homem toma consciência de si mesmo na filosofia, quando pelo pensamento conceitual chega a se conceber a si mesmo como aquele de quem emanam todas as coisas, inclusive o que antes atribuía a Deus.

Neste sentido, o processo de antropologização do sagrado deve ser levado até as últimas conseqüências, reconhecendo-se que o homem só atribui a Deus aquilo que considera divino em sua própria natureza. Assim, quando os cristãos deixam, seu Deus assumir a natureza humana e agir como um homem estão na verdade elevando à dignidade do divino a própria natureza e atividade humana. A superação da consciência religiosa significa apenas despedir-se da ignorância em que ela persiste acerca de si mesma. O pensamento crítico-filosófico abre a perspectiva da verdadeira gênese do divino: “Do que faço uma propriedade, uma determinação de Deus, isto já reconheci antes como algo divino. Uma qualidade não é divina por ser possuída por Deus, mas Deus a possui porque ela é divina em si e para si e por si mesma, porque Deus não é Deus se ela lhe falta. O homem – este é o mistério da religião – objetiva para si mesmo sua essência”.[2] Sendo assim, o pensamento crítico-genético proposto por Feuerbach não negará simplesmente a religião, mas procurará em suas representações a essência do homem, uma vez conhecida e estabelecida a verdadeira gênese da consciência religiosa.

A essência do homem para Feuerbach é explicada logo na introdução d’A Essência do Cristianismo, quando coloca que o homem se distingue de todos os animais pela consciência que tem de si mesmo. Os animais também constituem espécies, apresentam-se como elo numa cadeia de sobrevivência da espécie, mas eles não tomam consciência desta sua natureza específica. O homem se distingue, pois, dos animais por possuir consciência em um sentido bem preciso: “Consciência no sentido mais estrito só existe onde um ser tem como objeto seu gênero, sua essência. O animal certamente se tem como objeto enquanto indivíduo – por isso ele sente a si mesmo – mas não enquanto gênero”[3] O distintivo do gênero humano é, por conseguinte, a consciência que ele tem de seu próprio caráter genérico, o que significa que a ênfase antropológica não recai de maneira alguma sobre os momentos particulares ou individuais do ser humano, mas precisamente sobre aqueles momentos que caracterizam a consciência humana como consciência do gênero humano. Esta tomada de consciência do homem como gênero da-se em duas etapas, o religioso e o crítico-filosófico. A consciência de que é dele mesmo que se trata: “A religião é a inconsciente autoconsciência do homem”[4] Na religião o homem toma consciência de si como de um outro, projetando suas propriedades numa entidade divina separada, não chegando à consciência de que ele mesmo é esta entidade. Na filosofia, o homem chega à consciência disso, concebendo-se como aquele de que emanam todas as qualidades divinas naturalmente enquanto gênero e não enquanto indivíduo.

Diferente do animal, que só realiza as funções genéricas no contato direto com outros indivíduos, o homem é capaz de realizar funções genéricas sem necessariamente entrar em contato com outro indivíduo humano, pois ele é capaz de fazer do gênero seu objeto de pensamento, articulando os interesses genéricos no pensamento e no discurso, antes mesmo de entrar em contato com outros indivíduos. Sendo esta capacidade de pensar a humanidade ou o gênero humano o caráter distintivo do ser humano, se encontrará nela também a resposta à questão sobre a essência do homem. O que constitui o gênero humano ou a humanidade no homem é precisamente aquilo que é necessário para que ele possa se relacionar genericamente ou universalmente com sua própria natureza genérica. “Mas o que é pois, a essência do homem, de que ele tem consciência, ou o que constitui o gênero, a humanidade propriamente dita do homem? - A razão, a vontade, o coração - A força do pensamento é a luz do conhecimento, a força da vontade é a energia do caráter, a força do coração, o amor. Razão, amor, força de vontade são perfeições, as perfeições da essência humana, sim, perfeições essenciais absolutas.”[5] Estas mesmas perfeições que o homem religioso atribui a seu Deus são as perfeições do gênero humano, razão pela qual não existe uma oposição total entre a consciência religiosa e a consciência filosófica da essência humana. A razão, a vontade e o amor são as forças supremas da humanidade, constituindo a essência do homem enquanto tal, a ponto de Feuerbach considerar que eles são o fundamento ou a razão da existência humana, existindo o homem para pensar, amar e querer.[6] A razão por sua vez, não tem outro objetivo senão a razão, o amor, o amor, e a vontade, a vontade: pensamos para pensar, amamos para amar e queremos para querer, para ser livres. Por serem seu próprio objetivo, por serem fim em si, estas qualidades do ser humano são verdadeiramente divinas. E através destas qualidades o homem entra em contato com sua natureza genérica, transcendendo sempre sua individualidade. Pela razão, o homem pensa o universal, o genérico, o que diz respeito à humanidade como um todo. Pela vontade, o homem quer a si mesmo enquanto ser genérico, sacrifica sua individualidade pelo bem do gênero humano. Pelo amor, o homem se relaciona imediatamente com os outros como partes deste todo maior que é o gênero humano. Toda a essência do homem exige dele como indivíduo o sacrifício de sua individualidade e a obediente realização de suas funções genéricas.

A Essência do Cristianismo é dedicada também a mostrar como a religião cristã sempre falou desta essência do homem, apenas sem ter a consciência de que se tratava do gênero humano.
“Ao demonstrar a essência antropológica da religião Feuerbach esclarece que o fundamento e o objeto principal da religião é o homem, mas a religião concebe o ser humano como consciência do infinito e da eternidade. Por isso ele repõe a questão em outros termos – o fundamento e o objeto da filosofia é o homem, mas este ser humano é limitado e finito. A religião desemboca na teologia porque dispõe do conjunto de relações com o ser transcendental e diferente do homem. A filosofia encaminha-se para uma antropologia na medida em que desfaz o erro e o fanatismo, valoriza a inteligibilidade e a realidade do homem, admitindo a unidade infinito-finito, uma unidade que se realiza no homem e não em Deus”[7].
A leitura genética que Feuerbach faz das representações religiosas leva à destruição da consciência religiosa por sua superação, mas não a negação da natureza divina dos predicados obtidos com esta análise, pois agora é o gênero humano o portador de todos os atributos da divindade. O conteúdo e objetivo da religião, portanto, é totalmente humano, o mistério da teologia é a antropologia, a essência divina é a essência humana.

O objetivo de Feuerbach, portanto, é reivindicar a integralidade do ser humano, bem como, a percepção da religião como a relação do homem com sua própria essência, ou seja, que em Deus e por Deus, é a si mesmo que o homem visa.

[1] FEUERBACH, Ludwig, A Essência do Cristianismo, p.31[2] FEUERBACH, Ludwig, A Essência do Cristianismo, p.44[3] FEUERBACH, Ludwig, A Essência do Cristianismo, p.17[4] FEUERBACH, Ludwig, A Essência do Cristianismo, p.47[5] FEUERBACH, Ludwig, A Essência do Cristianismo, p.19[6] Idem[7] PAIVA, Eliana, Prof. Dept° Filosofia UECE, Texto A Transformação da Teologia em Antropologia, segundo Feuerbach.

3.3. PORQUE A PLENITUDE DE DEUS INVIABILIZA A FINITUDE DO HOMEM

A principal preocupação de Feuerbach com o fenômeno religioso foi no sentido de estabelecer uma crítica a religião por identificar nela uma profunda carência da consciência de si do homem. Ele percebe que entre o humano e o divino não há uma oposição de fato, real, mas sim ilusória. A contradição fundamental está no homem, porque não há uma essência religiosa. A religião é uma abstração das limitações da vida humana, corporal. Não há qualidade em si na vida divina. O homem em Feuerbach é um ser que teme a sua finitude e as limitações naturais que sofre todo ser humano. O homem possui uma essência “infinitamente diversa, infinitamente determinável, mas exatamente por isso sensorial”[1] O homem como homem sensorial, pleno de sentidos, é um ser rico em determinações: o engano do homem religioso é criar um ser espiritual e, portanto, abstrato. Esse homem religioso teme ser um homem finito, determinado. O que ele reconhece no ser divino são as qualidades de sua própria essência, que Feuerbach denomina “qualidade essencial do próprio homem”, criando uma “contemplação essencial” que o anima e o determina de fora.

O mistério dos vários atributos divinos encontram-se no próprio homem em sua essência infinitamente diversa, determinável e sensorial. É através dos sentidos que o ser humano é concebido como ser infinito, pleno de determinações. Dessa forma, podemos conceber a religião como uma cisão no homem: o ser divino é aquilo que o homem não é. Essa cisão entre o ser divino e o homem representa uma cisão do homem com sua própria essência oculta. O homem expressa essa essência oculta através da religião. Por meio dela podemos encontrar um conteúdo humano objetivado.

Na análise que Feuerbach vai fazendo sobre a simbologia presente no fenômeno da religião, o conteúdo objetivado das inúmeras crenças existentes vão sendo explicados de forma bem racional. Sobre isso, um exemplo muito curioso é quando analisa o papel simbólico da água do vinho e do pão no cristianismo. A água é um produto natural indispensável ao homem, já o vinho e o pão são produtos naturais por ele transformados, mas também importantes para sua sobrevivência. Assim, ele comenta: “adoramos na água a pura energia natural (...) no vinho e pão a energia sobrenatural do espírito, da consciência, do homem.”[2] A análise antropológica desse conteúdo religioso, neste exemplo, indica que na água expressamos nossa gratidão à natureza, no pão e no vinho nossa gratidão ao homem. Mas, Feuerbach vai além dessa constatação quando coloca que na adoração do pão e do vinho, concluímos que “o homem é o Deus e o redentor do homem”[3]Quando se toma essa perspectiva da religião, Deus torna-se uma realidade inquestionável. Para a religião, Deus é o “pai real” e o “amor real”, algo real, vivo e pessoal. Nele podemos identificar “qualidades vivas”. Essa afirmação da entidade divina corresponde a uma negação do homem: a religião se afirma pela abstração do homem e do mundo. Mas o fundamento desse processo de abstração permanece, pois a religião só pode abstrair-se das limitações humanas, não de sua essência: a religião “deve acolher novamente nesta abstração e negação aquilo de que ela se abstrai ou crê se abstrair”[4]

Assim, no mundo religioso temos um processo fundamental: objetivação/abstração. O segredo da religião é que o homem objetiva sua essência e se faz objeto deste ser objetivado. O ente divino se transforma em sujeito, o homem em objeto. Eis, então, a contradição que se verifica: “Ao ser o homem aparentemente rebaixado ao mais profundo abismo, é na verdade levado às alturas.”[5] Assim como aparece a divisão objetivação/abstração, Feuerbach também inclui os termos subjectivo/objetivo. A essência do homem representa sua dimensão subjetiva: “Quanto mais subjetivo, quanto mais humano for Deus, tanto mais despoja-se o homem da sua subjetividade, da sua humanidade, porque Deus é em e por si o seu ser exteriorizado, mas do qual ele se apropria novamente.”[6]

O que Feuerbach propõe para se destruir essa ilusão é a tomada de consciência da realidade humana através da Filosofia, pondo o infinito no finito, provando que Deus (a idéia) é criação do homem (do real), que a idéia de plenitude de Deus é um equívoco que acaba por dificultar o projeto de um homem verdadeiramente pleno e livre. Pela religião o sentido e a dignidade do ser humano e, em geral, tudo que há nele de positivo é fundado, como sua imagem fundamental, em Deus, e este se apresenta como a realização suprema, insuperável de todas as possibilidades humanas. O homem, portanto, não possui propriedade positiva nenhuma, que Deus não realize em si de modo incomparavelmente superior, infinito. Mas também o inverso parece ser válido, ou seja, todas as propriedades de Deus, sua sabedoria, seu poder, sua bondade, sua liberdade, encontram-se no homem em germe, em forma imperfeita. De acordo com isso, Deus não parece ter nenhuma propriedade que o homem não realize em si, ao menos de modo limitado, finito. Parafraseando Feuerbach: “Deus aparece como o ideal do homem, como o homem elevado e ampliado ao infinito: como poderia sem isso a religião conclamar a imitação de Deus? A própria infinitude, pela qual Deus parece distinguir-se do homem, já tem a sua raiz na aspiração infinita e nos anseios insaciáveis do homem. Se Deus é o homem na sua verdadeira dimensão, isto é, o homem propriamente dito, o homem ideal, o que resta ainda para o homem real, tal como existe na Terra? Essencialmente, poderá realizar o ser humano apenas de forma imperfeita, diminuída e derivada.”[7] A ilusão religiosa faz com que o homem real sinta-se sempre imperfeito e cada vez mais distante da sua própria essência, diante da onipotência e grandiosidade de um ser perfeito, externo a ele, apresentando-se como um ser finito, necessitado de auxílio, imerso no pecado, e devido ao abismo insuperável existente entre ele e Deus, jamais podendo chegar à plenitude verdadeira, original de um ser, apenas humano. O que Feuerbach considera, é que a transformação deste equivoco somente pode acontecer através de uma postura crítica, à partir de uma mudança na consciência, já que a unidade entre o finito e o infinito, não se realizam em Deus ou nessa Idéia Absoluta, mas somente a partir de um investimento na consciência de finitude e limites do próprio homem.

[1] FEUERBACH, Ludwig, A Essência do Cristianismo, p.65[2] FEUERBACH, Ludwig, A Essência do Cristianismo, p. 315[3] FEUERBACH, Ludwig, A Essência do Cristianismo, p. 315[4] FEUERBACH, Ludwig, A Essência do Cristianismo, p. 69[5] FEUERBACH, Ludwig, A Essência do Cristianismo, p.71[6] FEUERBACH, Ludwig, A Essência do Cristianismo, p.72[7] RIESENHUBER, Klaus, Experiência Existencial e Religião, p.15