12.4.10

A MITOLOGIA AFRICANA


A mitologia, tanto a européia como as de outras tradições, aborda instintos humanos (como o poder do amor, do ciúme, da ansiedade; o conflito de gerações; a violência; a tristeza da doença e dos sinistros; o mistério da morte; o desafio do desconhecido; os tempos de má e boa fortuna e todo o peso do destino). Contos de homens e deuses retratam os reveses e as alegrias da vida.
Nietzsche observou que os gregos ofereciam festas a todas as suas paixões e inclinações; eles consideravam como divino tudo que tem algum poder no homem; o cristianismo jamais compreendeu esse mundo pagão e sempre o combateu e o desprezou.

A mitologia européia é interpretada hoje sem restrição. Mas há restrição quando falamos em mitologia africana, certamente porque a relacionamos com o culto aos orixás (candomblé e umbanda), ainda vivo na África e no Brasil.

Devemos deixar de lado o aspecto religioso e conhecer a beleza e a riqueza da cultura africana, na qual se inclui a sua mitologia e sua arte. Os principais produtos artísticos africanos são as máscaras e as esculturas em madeira, as quais, para os membros da sociedade africana, constituíam objetos sagrados com poderes sobrenaturais: acreditavam que poderiam atrair a destruição ou distribuir bençãos.

As máscaras e as esculturas em madeira têm forma angulosa, assimétrica e distorcida; uma forma não-realista, obviamente para expressar, com efeito dramático, que os objetos abrigam espíritos poderosos; nada de aparência real, mas formas verticais e membros do corpo alongados.

Pablo Picasso conheceu, por volta de 1905, a arte africana, a qual muito o atraiu, principalmente pela sua independência da tradição européia. Disse Picasso sobre as máscaras africanas: "Senti que eram muito importantes ... As máscaras não eram apenas peças esculpidas ... Eram magia".
A arte africana inspirou Picasso a criar o movimento cubista, o qual recebeu a influência das distorções do entalhe africano, destinadas a mostrar simultaneamente aspectos múltiplos de um objeto. As técnicas cubistas expressam intensas emoções e conflitos internos. O quadro Les Demoiselles d'Avignon representa o ponto de transição da fase de influência africana para o puro Cubismo; esse quadro é uma obra de ruptura (encerrou o reinado de quase quinhentos anos da Renascença), uma das poucas obras que, sozinha, alterou o curso da arte; os cinco nus do referido quadro têm anotomia indistinta, olhos tortos, orelhas deformadas e membros deslocados.

As máscaras não eram apenas peças esculpidas ... Eram magia. Esse sentimento de magia, manifestado por Picasso, nos lembra recente ensinamento de Desmond Morris, autor de "O Macaco Nu", um dos maiores especialistas em comportamento humano e fabricante de amuletos. A revista Superinteressante perguntou-lhe: Não é contraditório que um cientista faça esse tipo de jóias? Você crê no poder desses objetos?

Respondeu Desmond: Claro que não. Mas creio no poder de quem os leva. Está provado que se você acredita que um objeto vai lhe ajudar e proteger, suas defesas crescem e sua energia flui com mais harmonia. Tudo está em nosso interior.

Na mitologia africana, há um deus supremo (Olodumaré), o qual criou os orixás (deuses) para governarem e supervisionarem o mundo. O orixá é uma força pura e imaterial, a qual só se torna perceptível aos seres humanos manifestando-se em um deles; o ser escolhido pelo orixá, um de seus descendentes, é chamado seu elégùn, o veículo que permite ao orixá voltar à terra para saudar e receber as provas de respeito de seus descendentes que o evocaram. Ainda inexiste um panteão de orixás bem hierarquizado, único e idêntico.

Quais os principais deuses (ou orixás) ou autoridades da mitologia africana ? Exu, Ogum, Oxóssi, Ossain, Orunmilá, Oranian, Xangô, Iansã, Oxum, Obá, Iemanjá, Oxumaé, Obaluaê, Nanã e Oxalá. Africanos e não africanos têm em comum tendências inatas e um comportamento geral que corresponde às características de um orixá (arquétipos).

Exu é o guardião dos templos, das casas, das cidades e das pessoas; serve de intermediário entre os homens e os deuses (chamado de mensageiro, compadre ou homem da rua); suas cores são o vermelho e o preto. Os missionários compararam Exu com o Diabo, símbolo da maldade, porque Exu é astucioso, grosseiro, vaidoso e indecente. Mas Exu possui o seu lado bom; revela-se o mais humano dos orixás, justamente porque não é completamente mau, nem completamente bom. Exu é o arquétipo das pessoas com caráter ambivalente (ao mesmo tempo boas e más), porém com inclinação para a maldade, a obscenidade e a corrupção.

Ogum é o deus do ferro, senhor da guerra e dono das estradas, patrono das artes manuais; sua cor é o azul escuro. Sincretizado com Santo Antônio de Pádua (Bahia) e São Jorge (Rio de Janeiro), Ogum é o arquétipo das pessoas violentas, briguentas e impulsivas, incapazes de perdoar as ofensas de que foram vítimas.

Oxóssi é o deus dos caçadores; veste-se de verde na Angola e de azul-claro no Ketu. Oxóssi é o arquétipo das pessoas espertas, rápidas, sempre alerta e em movimento; pessoas cheias de iniciativa e sempre em vias de novas descobertas ou de novas atividades; pessoas com senso de responsabilidade e dos cuidados para com a família.

Ossain é o deus das plantas medicinais e litúrgicas. O arquétipo de Ossain é o das pessoas de caráter equilibrado, capazes de controlar seus sentimentos e emoções; pessoas com extraordinária reserva de energia criadora e resistência.

Orunmilá não é um orixá; é o senhor das advinhações; é consultado em caso de dúvida, quando as pessoas têm uma decisão importante a tomar a respeito de uma viagem, de um casamento, de uma compra ou venda; é consultado ainda quando as pessoas querem saber a causa de uma doença.

Oranian é o orixá famoso pelas suas numerosas conquistas, rei da terra.

Xangô, viril e atrevido, senhor do fogo, é o deus justiceiro, o qual castiga os mentirosos, os ladrões e os malfeitores; sua cor é o vermelho e o branco; esposo de Iansã, Oxum e Obá. Sincretizado com São Jerônimo, Xangô é o arquétipo das pessoas voluntariosas e enérgicas, altivas e conscientes de sua importância real ou suposta; pessoas que sabem guardar um profundo e constante sentimento de justiça.

Iansã, de temperamento ardente e impetuoso, guerreira, é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Níger; sua cor é o vermelho e o branco. Sincretizada com Santa Bárbara, Iansã é o arquétipo das mulheres audaciosas, poderosas e autoritárias; mulheres cujo temperamento sensual e voluptuoso pode levá-las a aventuras amorosas extraconjugais múltiplas e frequentes.

Oxum é a divindade do rio do mesmo nome; controla a fecundidade, daí por que as mulheres que desejam ter filho dirigem-se a ela. Oxum é chamada de Ialodê, título conferido à pessoa que ocupa o lugar mais importante entre todas as mulheres da cidade; além disso, ela é a rainha de todos os rios e exerce seu poder sobre a água doce. Sincretizada com Nossa Senhora das Candeias (Bahia) e com Nossa Senhora dos Prazeres (Pernambuco), Oxum é o arquétipo das mulheres graciosas e elegantes com paixão pelas jóias, perfumes e vestimentas caras; mulheres que são símbolos do charme e da beleza; mulheres que têm grande desejo de ascensão social.

Obá é a divindade do rio do mesmo nome; sua cor é o vermelho e o branco. Sincretizada com Santa Catarina, Obá é o arquétipo das mulheres valorosas e incompreendidas; mulheres que, em compensação às frustrações, encontram sucessos materiais, em virtude de sua avidez de ganho e do cuidado de nada perder dos seus bens.

Iemanjá é a deusa do mar, das ondas turbulentas, símbolo da maternidade fecunda e nutritiva (mulher de Oxalá, também é chamada de Inaê, Oloxum ou Janaína); suas cores são o azul e o branco. Sincretizada com Nossa Senhora da Imaculada Conceição, Iemanjá é o arquétipo das mulheres voluntariosas, fortes, rigorosas, protetoras, altivas e, algumas vezes, impetuosas e arrogantes; mulheres que se preocupam com os outros; maternais e sérias; mulheres sem a vaidade de Oxum, mas que gostam do luxo, dos tecidos azuis e vistosos.

Oxumaré, símbolo da riqueza, da continuidade e da permanência, é a serpente-arco-íris (é ao mesmo tempo macho e fêmea); ele transporta as águas da Terra para o Céu através do arco-íris; suas cores são o verde e o amarelo. Oxumaré é o arquétipo das pessoas que desejam ser ricas; das pessoas pacientes e perseverantes nos seus empreendimentos e que não medem sacrifícios para atingir seus objetivos.

Obaluaê é o deus da varíola e das doenças contagiosas; pune os malfeitores e insolentes enviando-lhes a varíola; cura ou faz ficar doente (também chamado de Omulu); suas cores são o preto e o branco. Sincretizado com São Lázaro e São Roque (Bahia) e com São Sebastião (Pernambuco e Rio de Janeiro), Obaluaê é o arquétipo das pessoas com tendências masoquistas; pessoas que gostam de exibir seus sofrimentos e suas tristezas, das quais tiram uma satisfação íntima; pessoas que, em certos casos, se sentem capazes de se consagrar ao bem-estar dos outros.

Nanã é deusa das águas paradas dos lagos e lamacentas dos pântanos. Sincretizada com Sant'Ana, Nanã é o arquétipo das pessoas que agem com calma, benevolência, dignidade e gentileza; das pessoas lentas no cumprimento de seus trabalhos e que julgam ter a eternidade à sua frente para acabar seus afazeres.

Oxalá, o Grande Orixá, o primeiro orixá criado por Olodumaré (conhecido também por "O Rei do Pano Branco"); patrono da fecundidade e da procriação; esposo de Yemanjá; sua cor é o branco. É sincretizado na Bahia com o Senhor do Bonfim. Oxalá é o arquétipo das pessoas calmas e dignas de confiança; das pessoas respeitáveis e reservadas, dotadas de força de vontade inquebrantável.

Os colonizadores portugueses reprimiram o culto aos orixás, porque o viam como feitiçaria. Os escravos africanos fizeram então a associação dos orixás com os santos católicos, formando o sincretismo religioso de hoje.

Jorge Amado, no capítulo Macumba de seu livro Jubiabá, relata uma festa na casa do pai-de-santo Jubiabá:

Na sala estavam todos enlouquecidos e dançavam todos ao som dos atabaques, agogôs, chocalhos, cabaças. E os santos dançavam também ao som da velha música da África, dançavam todos os quatro, entre as feitas, ao redor dos ogãs. E eram Oxóssi, o deus da caça, Xangô, o deus do raio e do trovão, Omulu, o deus da bexiga, e Oxalá, o maior de todos, que se espojava no chão.
No altar católico que estava num canto da sala, Oxóssi era São Jorge; Xangô, São Jerônimo; Omulu, São Roque; e Oxalá, o Senhor do Bonfim - que é o mais milagroso dos santos da cidade negra da Bahia de Todos os Santos e do pai-de-santo Jubiabá. É o que tem a festa mais bonita, pois a sua festa é toda como se fosse candomblé ou macumba.

Esclarece Jorge Amado: na porta da casa do pai-de-santo Jubiabá, negras vendiam acarajé e abará; antes da festa, fizeram o despacho de Exu, o qual foi perturbar outras festas mais longe.

(Newton Freitas)

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